Tudo sob controle
On May 25, 2023 | 0 Comments

Dormi seis horas. Acordei só uma vez, mas voltei a dormir logo. Seis horas. Parece outro universo. Um onde meu nariz funciona. Onde consigo enxergar os detalhes do quarto, aonde tenho controle do pensamento que vai de A para B sem “olha, tem um buraco naquela parede”.

Ontem fui lavar o rosto e vi o tamanho das minhas olheiras pela primeira vez. Os olhos são grandes, mas andavam recolhidos em suas persianas e agora vestiam um babador escuro, pronto para a refeição da noite. Não sabia dizer há quanto tempo estavam assim.

Tenho enfrentado esse problema nos últimos meses, o que também tem sacolejado minhas mudanças de hábito e talvez enlouquecido um pouco os meus vizinhos com um aspirador à meia-noite (só uma vez, juro).

Essa insônia me fez encontrar horários alternativos para escrever (o que estou fazendo agora), descobrir que preciso ter hora para jantar e que é melhor cortar o café e o refrigerante. Tudo vai lentamente se reorganizando em uma nova rotina até que em alguma hora (espero) faça um clique e comece a funcionar sozinho. Ainda falta dormir.

Essa noite dormi seis horas e fico me perguntando onde foi que deu certo. Qual o tipo e quantidade de chá que tomei ontem? O que comi no almoço? Que horas tomei os ansiolíticos? Que pecinha dessas preciso manter e quais devo sacrificar nesse grande pacto em troca de saúde mental?

Dormir é bom e todo mundo gosta! Mas a sensação de acordar com a mente clara e alerta é quase a mesma de conseguir respirar livremente depois de uma semana de gripe.

Hoje respiro, enxergo e entendo. Gostaria que amanhã, e nas manhãs seguintes, também pudesse ser da mesma forma. Estou retomando a minha vida na unha, pedaço por pedaço.

Durante um bom tempo eu era só um corpo amarrado no porta-malas do carro da vida. Não tinha nenhum controle sobre nada. Nenhuma escolha sobre nada. O carro foi sendo guiado a esmo, comigo batendo dentro, sem nem saber quem dirigia. Vivia em uma espécie de relacionamento abusivo comigo mesmo, ou talvez uma ditadura vazia sem autoridade de ninguém.

Ter controle sobre a própria vida é ter responsabilidade sobre a mesma e é isso o que a maioria das pessoas gostaria de evitar.

Indo bem além da minha formação acadêmica, diria até que este é um dos instrumentos mais usados por líderes de seitas e governos totalitários para ganhar o poder, assumindo as responsabilidades da pessoa para ela não se preocupar com mais nada, mas levando consigo também o controle sobre cada aspecto da sua vida.

Agora começo a me sentir no controle dessa vidinha simples que escolhi, onde os detalhes são mais importantes do que o todo, onde consigo respirar, dormir, decidir a posição dos vasos de plantas e a cor que vou pintar o quarto; talvez seja realmente essa sensação de ter tantas escolhas que ande me deixando sem sono.

Passo o dia tomando decisões, como se um nó tivesse se desfeito e agora eu pudesse mudar absolutamente tudo o que parecia impossível antes. Nunca joguei tanta coisa fora. Tudo o que não me serve já não quero mais. Isso tem servido para roupas, hábitos, equipamentos, alimentos e relacionamentos e a cada vez que faço uma escolha, fico ainda mais ansioso para fazer a próxima. Entre uma escolha e outra vou acertando, errando, corrigindo e me adaptando, enquanto também vou descobrindo as minhas responsabilidades sobre elas.

Nem todas as decisões, como era de se esperar, são boas; mas das boas e das más tiro proveito, se não como aprendizado, ao menos como histórias para este pequeno espaço de alegria que escrevo quase que diariamente agora.

Já não me lembrava muito bem como era ser o protagonista da própria história e é como tenho me sentido nos últimos meses. Tem sido bom. Às vezes engraçado, em alguns momentos bastante trágico, em outros confuso e aterrorizador. Às vezes é um pouco solitário e um conselho faz falta na jornada, mas sinto como meu cada passo que dou.


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