Dia do Escritor
On July 25, 2022 | 0 Comments

Hoje  é dia do escritor. Talvez seja verdade. Tenho sempre a impressão de que existem uns três dias do escritor por ano, dois do leitor, quatro do livro e assim vamos. Não sei onde fica a verdade e, para ser bem honesto, estou com preguiça de pesquisar, perdoem-me. É segunda-feira e trabalhei no fim de semana, meu humor não está dos melhores (somo se eu precisasse de algum motivo).

Embora o escritor esteja escrevendo o tempo todo o que ele menos faz é escrever.

Enfim, é dia do escritor e me senti em uma obrigação quase moral de romper com a programação para mencionar isso e fazer coro com o restante da minha bolha que neste exato momento está comemorando os sofrimentos do ofício: livros na gaveta; edições surradas; royalts não pagos; pirataria dos leitores; críticas negativas; haters de internet e todo aquele pacote de benefícios e malefícios que tomam o nosso cotidiano, exceto, talvez, escrever.

Porquê embora o escritor esteja escrevendo o tempo todo o que ele menos faz é escrever. Eu sei, parece confuso, mas quem pratica sabe. A gente escreve enquanto lê, escreve enquanto assiste um filme, escreve ouvindo a conversa no elevador, escreve lendo uma notícia, escreve enquanto sonha, enquanto cozinha, enquanto reclama, escreve enquanto trabalha, finge que trabalha ou se mata de trabalhar. Estamos sempre escrevendo. A cabeça não para de montar enredos, frases, parágrafos, capítulos, diálogos, uma lista sem fim de personagens. Operamos sempre em duas realidades. O que acontece e o que pode acontecer. Então quando arrumamos tempo para colocar o cotidiano de lado, passamos a limpo os pensamentos e é isso o que as pessoas chamam de “escrever”.

O mundo para o escritor não faz sentido fora do papel. Escrevemos para colocá-lo em ordem, compreendê-lo e o que sentimos sobre ele. Quando José Saramago disse que “somos todos escritores, só que alguns escrevem e outros não”, suspeito que estivesse falando exatamente sobre esse sentimento de que existe uma glândula grafológica dentro de nosso cérebro, um órgão esponjoso que vez por outra precise ser espremido para dar espaço para outros pensamentos.

Enquanto estou escrevendo, sei que as coisas estão no lugar. Que os problemas estão sendo processados e trabalhados de alguma forma. Que sou uma pessoa funcional, mesmo com todas as surras e dificuldades. Por mais que a vida me ataque, sei que tenho na escrita uma fortaleza de segurança, onde posso me organizar e voltar para a batalha. Sei que estou com problemas quando não quero escrever. Quando escolho dormir ao invés de tomar nota, quando me sento para escrever e sinto fome, sono, vontade de limpar a casa, sair na rua e fazer amizade com um gato vira-lata.

Quando fujo do que precisa ser escrito, os pensamentos são empilhados uns sobre os outros, como entulho diante de uma casa em obras. Objetos inutilizáveis tomando os cômodos onde vive um acumulador. Lixo, entulho, palavras soltas, sentimentos sem memória, ideias, fluxos, nomes, datas que já não dizem nada, tudo misturado com ninhos de rato, fezes humanas, esqueletos de pombos, restos do jantar e um jabuti perdido em 1987, em meio a fichas de eventos que eu começo a desconfiar se foram ou não realidade.

É tão exaustivo quanto parece. É a sensação de soprar um balão até perder o fôlego, sabendo que em algum momento ele vai explodir e, depois que ele explode, recolher os pedaços de borracha pelo chão, antes de começar o processo todo de novo. O alívio, quando acontece é momentâneo, um instante de paz, se muito, quanto tudo já está escrito e nada mais; então voltamos ao inicio.

Escrever só acontece porquê não existe outra alternativa. Não é uma escolha, nem benção, maldição ou dom divino. É um processo. Fica tão entranhando na gente que se torna um novo sentido, uma inteligência a parte. Não escrever é uma espécie de lobotomia que arranca algo do mundo ao nosso redor. Um daltonismo que esconde as cores da verdade. Escrever não me torna nem um pouco inteligente, mas não escrever certamente me torna um tanto mais lento, sem capacidade para entender o mundo direito.

Hoje eu acordei febril. Sinto o corpo massacrado como se estivesse prestes a pegar uma gripe. Não fiz a cama, não preparei o almoço, mas recolhi o lixo e lavei a louça que estava acumulada, mas o mais importante de tudo. Hoje eu escrevi e por causa disso sei que tudo vai ficar bem. Feliz dia do escritor, para os que escrevem ou não.


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