Medo do Medo
On March 31, 2022 | 0 Comments

A ansiedade cresce no medo e vai se torna o medo de ter medo.

Você já ficou de pé na beira de um abismo? No alto de um muro? No galho de uma árvore? Nada além do vento e a concentração para manter o equilíbrio. Aquela certeza eminente de uma queda que nunca acontece. Os joelhos fraquejam, voltam a posição, seu corpo se inclina, você encara o chão com desespero. O mundo gira de cabeça para baixo, nuvens macias deslizam por um céu azul, você escorrega! Se abaixa, respira, se põe de pé, sorri aliviado. Ainda não. Talvez agora. Se não mais tarde.

É mais ou menos isso o que acontece quando tenho uma crise de ansiedade. A sensação de que vou cair a qualquer instante e que não existe lugar algum onde eu possa me segurar. Não existe a queda, apenas o medo da queda. Medo de não ser o suficiente, de estar fazendo algo errado, medo de que não vai dar conta, de que o dinheiro acabe, o emprego suma, o livro não saia, a namorada vá embora, o cachorro morra, o gato fuja, o pai fique doente, o meteoro finalmente atinja a terra. Medo. A ansiedade cresce no medo e vai se tornando o medo de ter medo, porquê essa sensação é ainda pior do que a queda.

Ainda acho difícil falar sobre minhas crises de ansiedade, principalmente enquanto ela está acontecendo. Algo ainda me faz calar e enfrentar tudo sozinho, como se ao falar sobre isso eu transformasse o medo em realidade, mas já consigo falar sobre elas depois que passam e entendo isso como sinal de que estou um pouco melhor. Aqui estamos.

Faz uns anos que as coisas estão mais ou menos sob controle. Depois que minha psicóloga e eu passamos a suspeitar que eu pudesse ter distimia e eu aceitei tentar me medicar, as coisas passaram a ter algum controle. Nos meus piores dias, desde então, eu fico apenas cansado ou ligeiramente mal humorado, e só preciso de algumas horas de distração para me colocar de pé como se nada tivesse acontecido.

A sensação de estar no controle transformaram os últimos anos nos melhores da minha vida. Pela primeira vez eu conseguia pensar além da catástrofe eminente da queda. Podia olhar para frente e ver o horizonte. Sentir o vendo, apreciar a paisagem, podia até arriscar outro passo. Chegar até aqui não foi simples.

A medicação é essencial, mas não faz milagres sozinha. Descobri que ajuda muito se eu fizer as refeições direito, se beber água, se praticar algum exercício. Meditação ajuda bastante, assim como dormir direito e falar com os amigos. Outra coisa que ajuda é identificar e fugir dos gatilhos, que no meu caso geralmente são responsabilidades que assumo como minhas e pelas quais não tenho o menor controle. Essa talvez seja a parte mais difícil.

Estou em crise a quase uma semana. Foi uma semana conturbada, de um mês conturbado, em um ano conturbado de um país que não ajuda em nada a paz de espírito. Prova disso é que eu não encontrava meu remédio em nenhuma farmácia. Não sou o único ansioso desse país e pelo visto o mercado anda aquecido.

Talvez eu esteja costurando histórias, afinal é isso o que faço, mas sinto que foi nesse ponto que comecei a perder o equilíbrio. A ideia de que ficaria sem remédio, me fez pensar em tudo aquilo que não queria enfrentar novamente. A lembrança da vertigem e do medo, por si, me trazia vertigem e medo. Medo do medo. É a essência da ansiedade.

Minha negligência com a saúde, é claro, também teve o seu papel. Semanas sem dormir direito e comer direito, dias sem ter tempo sequer de levantar da cadeira, ou de fazer algo que gosto, como ler ou escrever. Sem forças sequer para assistir algo mais longo do que um vídeo do youtube. De preferência, 15 segundos de tiktok.

A crise já estava silenciosamente instalada. Uma bomba relógio com tic tac mal disfarçado, mas juro que não ouvi.

Rotina, Tratamento e Responsabilização. Duas pernas do tripé já tinham se quebrado e a última nunca foi a perna mais forte.

É importante a gente sempre lembrar que, independente do que nós estivermos fazendo, estamos sempre dando o nosso melhor com os recursos que temos em mãos, mesmo que não seja o suficiente para o mundo. As vezes você não tem tempo, energia, dinheiro, paciência, vontade ou conhecimento para fazer o que o mundo espera, mas isso não quer dizer que você não esteja trabalhando no limite. Um limite que muitas vezes não é definido por você, mas por outros fatores que não estão inteiramente sob o seu controle. O mundo não conhece esses limites (as vezes nem nós o conhecemos até chegarmos a eles) e tem suas próprias expectativas.

Quando você ultrapassa esses limites para atender as expectativas do mundo é como permanecer de pé naquele abismo, porém apoiado em um só pé e quando você começa a se culpar por não conseguir cumprir com as expectativas que o mundo tem, é quando se quebra a terceira perna.

No fim de semana a terceira perna se quebrou sem qualquer aviso e entrei imediatamente no modo crise. Eu ainda estava me sentindo culpado por não ser o suficiente e não percebi o que estava acontecendo de imediato, mas na segunda feira uma vozinha sussurrou no meu ouvido que morrer era mais fácil. Foi quando me dei conta.

Nos últimos dias tenho me esforçado para não trabalhar fora do horário, comer direito e descansar. Fiz meditação, tomei meus remédios e tenho trabalhado no pensamento de que não tenho controle sobre tudo, estou aqui, apenas dando o meu melhor, na esperança de que tudo dê certo. Não ouvi mais aquela voz, mas sei que ela está ali rondando, tentando me assustar, só para eu perder o equilíbrio e me agarrar ao galho, sem coragem de me mover. Sei que ela está ali, porquê ela nunca vai embora, só fica calada, esperando a oportunidade.

Hoje, pela primeira vez, consigo escrever sobre isso e entendo como bom sinal. Ainda não consigo conversar sobre isso, mas talvez daqui a alguns dias. Entender o que aconteceu vai me ajudar a evitar outras crises e eu vou precisar mexer em algumas coisas na minha rotina e desativar alguns gatilhos, mas já me sinto melhor, já consigo pensar. O mundo ao redor não parece insuportável. Consigo até escrever. E enquanto escrevo, tudo está bem. Não importa as expectativas que o mundo tenha.


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