Depois da quarentena, o que nos resta
On June 8, 2020 | 0 Comments

O ar ventilava narina a dentro provocando cócegas. A sensação era boa. As vezes ainda ajeitava a máscara, completamente esquecido de que não estava lá. Fazia o mesmo quando usava lentes. Sempre empurrando óculos inexistente à sua posição na tentativa de dar foco ao mundo. Seu nariz tampava, ele ajeitava a máscara, e em vez de tecido encontrava a aspereza da própria barba.

– Você já pediu? – A voz da garçonete era cristalina e ela tinha um sorriso bonito. Sorrisos eram difíceis de fingir, porquê nascem nos olhos. A gente aprende algumas coisas quando não está prestando atenção nos lábios de uma pessoa.

– Estou esperando alguém. – O rapaz disse, a voz pigarrenta pela falta de hábito.

– Primeiro encontro? – A mulher brincou.

– Reencontro.

– Boa sorte.

Fazia sentido que se reencontrassem ali, mesmo assim ele tinha se arrependido da escolha. A lanchonete estava vazia, a maioria dos lugares estavam. As pessoas preferiam se encontrar em lugares abertos, matando a sede de luz do sol. Eles deviam ter feito o mesmo, mas foi ali que se encontraram pela primeira vez.

Da janela o rapaz a viu chegando. Passadas largas e apressadas, vestido balançando, deslocada como uma garota dos anos cinquenta. Acenou ao vê-lo. Aquele frio na barriga. Entrou na mesma velocidade, quase não lhe dando tempo para levantar. Jogou-se aos seus braços, deixou-se apertar. Os cabelos cheirando a maça verde. Ficaram assim, um minuto ou dez, uma semana ou duas. Uma saudade que queimava como a pele do outro colada ao corpo. Corações agitados buscando sincronia. Ele quis chorar, ela o chamou de frouxo. Riram.

A garçonete voltou para pegar os pedidos, escolheram ao acaso, ninguém estava com fome. Ele não se lembrava de tê-la visto assim tão bonita antes.

– É estranho te ver em Ultra-HD. – Brincou, ameaçando tocá-la.

– Bobo! – Ela afastou sua mão. – Pelo menos você penteou o cabelo.

– E passei perfume, não notou?

– Eu pensei que tinha sido a garçonete.

Novas risadas. Era estranho fazer aquilo ao vivo depois de todo aquele tempo. O ar estava mais limpo, as pessoas mais animadas, as máscaras tinham quase sido deixadas de lado, mesmo assim eles adiaram o momento, mas precisavam disso.

– Sinto muito pela sua mãe. – A garota falou.

– E eu sinto muito pelos seus avós.

Deixaram por isso. A conversa continuou, ela já estava trabalhando, ele ainda fazendo uns bicos, mas as contas estavam quase todas pagas. Estava escrevendo um livro novo. Vez por outra resvalavam em um nome e a conversa se apagava, sinalizando que a pessoa tinha partido. Uma distância imensa se colocava entre eles.

– É como se você acordasse de um coma e metade das pessoas que você conhecia tivesse desaparecido. – Ela simplificou.

Os memoriais, não eram o suficiente. Haviam, simplesmente, nomes demais para se lembrar e a todo instante outro choque, outra despedida, outro lamento. Era o mesmo com as pessoas famosas. Ninguém mais fazia piada sobre se a pessoa “morreu, ou está na Record”.

– Outro dia eu fui no cinema. Sessão da tarde, absolutamente ninguém, dava até pra ficar pelado. Era estreia daquele filme que a gente queria ver, lembra? Nem acreditei, tinha até esquecido dele. Tanto tempo depois… – Ele disse.

– Achei que não iam lançar.

– Eu também, mas o filme é ótimo. Chorei horrores.

– Ué, mas não era comédia? – A garota estranhou, ajeitando o cabelo atrás da orelha.

– Também ri horrores.

Durante os créditos, surgiram o nome de todos aqueles que tinham falecido antes da estreia. Entre eles o diretor e o ator principal. No silêncio do cinema, cenas dos bastidores, erros de cena. Todos riam, mas ele não.

Terminaram a conversa com o café esfriando no fundo da xícara. Pediram a conta, passos lentos até o metrô. Cinquenta centímetros de distância. Ela braços cruzados, ele gesticulando no idioma da Mooca. Se despediram na escada, com um beijo. Breve tocar de lábios, fruto do hábito. Se olharam constrangidos, sem coragem de repetir o gesto.

– Sinto muito que tenha terminado assim. – Ela disse.

– Eu também. – Respondeu, tirando uma máscara florida do bolso.

A garota riu, porquê a máscara era rosa. Ele sabia que era só provocação. Cada um para o seu lado da plataforma, o rapaz a viu entrar no metrô e acenar se despedindo, pronta para chorar tão logo ele não estivesse vendo. Ele sabia. A gente aprende algumas coisas quando não está prestando atenção nos lábios de uma pessoa.

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