Daqui a cinco anos…
On July 11, 2022 | 0 Comments

Eu não sei se acontece o mesmo com vocês, mas a pergunta que eu mais odeio, em qualquer entrevista de emprego, é “como você se vê daqui a cinco anos?”. Não é que eu não saiba a resposta, é simplesmente que a resposta honesta não tem relação alguma com qualquer vaga de emprego que eu possa querer. Daqui a cinco anos eu me vejo na praia, assistindo minhas cachorras brincando na areia, enquanto termino minha cerveja, em plena quarta-feira às dez horas da manhã.

O café que tomei logo cedo já está perdendo o efeito. Como acordo cedo, como cedo. O terreninho da minha casa não é grande, mas tem espaço de sobra para as cachorras andarem e não ficarem muito ansiosas com o passeio, o que me dá mais tempo para aproveitar a manhã, fazer algumas notas e terminar meu café antes de sair para caminhar. Tem uma trilha curta que começa no fim da rua e sobe na direção de uma pequena cachoeira. Esta meio lamacento pela chuva de outro dia, mas eu a encaro mesmo assim, devagar, pois já não somos jovens. Após lavar o rosto na cachoeira, deixo as cachorras se esbaldarem na água e descemos novamente, agora na direção da praia.

Na areia encontro minha cerveja e me sento para pensar no que vou escrever naquele dia. A manhã passa, a fome aumenta, o sol se aquece, desisto da areia em troca de um pouco de sombra e uma boa porção de peixe, quando finalmente tenho uma ideia que pode servir como conto e começo a tomar notas ali mesmo, entre garfadas e goladas.

Na parte da tarde, após voltar para casa e tirar um cochilo na rede, tomo um café forte e começo a trabalhar no conto novo. O sol já está baixo quando termino o rascunho, a casa está na penumbra e eu luto contra os mosquitos. Da janela da sala eu consigo ver o último raio de sol se projetando na parede, vermelho e sadio. Tarde demais para repetir o passeio, então eu preparo o jantar e como assistindo a um filme.

Antes de dormir, eu escrevo mais um pouco.

A maioria das vezes a pergunta não chega a uma segunda fase, mas supondo que a entrevistadora estivesse entediada naquele dia e tivesse realmente ouvido a minha resposta, talvez ficasse com algumas dúvidas. Que casa é esse, o que você está escrevendo, de onde vem a sua subsistência. Perguntas práticas e objetivas que me dariam a chance de demonstrar meu comprometimento com o futuro, minha gestão financeira ou mesmo algum talento que não estivesse claro no meu currículo, mas a verdade é que se eu precisasse realmente chegar nessa parte da história eu não saberia o que dizer, porquê esses cinco anos são um sonho distante, uma ilusão que eu e muita gente mantém como forma de escapar da loucura que é a vida que a gente leva.

Posso responder que em cinco anos vou viver na praia, vou ganhar na loteria vou ser piloto de balões suborbitais ou vou ter minha primeira exposição individual no Louvre. Não acho que a resposta importe de verdade, porquê não acho que exista uma resposta verdadeira. Daqui a cinco anos eu me vejo mais cansado do que estou hoje, trabalhando tanto quanto trabalho agora, minha saúde piorou, o dinheiro parece mais curto, continuo fazendo contas pensando em uma aposentadoria que não vai chegar e, no fundo, eu sei, como todo mundo sabe, que vai ser uma sorte se conseguir trabalhar até o dia da minha morte, porquê o medo de verdade é ficar doente e não conseguir garantir o pão e o aluguel, acabar definhando em uma cama no quarto dos fundos, na casa de algum parente.

Não acho que essa resposta vá garantir o emprego de ninguém, então faço o que todo mundo faz nessas horas. Respiro fundo e minto sobre promoções, salários, ideias mirabolantes de negócios, departamentos fictícios criados do absolutamente nada e sem razão, produção, empenho, força de vontade e a vitória da meritocracia contra a adversidade. A entrevistadora sorri, balança a cabeça e faz um sinal na página da frente do currículo, não quer dizer nada de verdade, no máximo que eu respondi o que todos os outros responderam.

Ela sabe ser mentira; ela também já respondeu aquela pergunta; é esse o verdadeiro teste, não tem absolutamente nenhuma relação com planos de carreira; ela só precisa saber o quanto você está empenhado em fingir. O quanto de si você está disposto a prescindir para pagar o aluguel mais um mês, colocar comida no prato mais uma semana e começar a pagar as férias que pretende tirar depois de um ano. Ela só quer saber se você é outro robozinho preparado para se adequar ao mundo corporativo. Então sorria e lembre-se, antes de negociar o salário, de colocar na conta o valor da consulta do seu psiquiatra, do ansiolítico e do antiácido. Talvez assim você consiga aguentar mais cinco anos…

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