Já ficou rico escrevendo?
On March 7, 2022 | 0 Comments

“Já ficou rico escrevendo livro?” Toda vez que eu encontro um amigo que não vejo há muito tempo, ouço a mesma pergunta. Respondo com um sorriso constrangido e um acenar de mãos, dizendo que ainda não. Ainda é meu passatempo de rico. “Mas você tá rico?” É a segunda parte da piada. “Não, mas o passatempo eu já tenho.”

Não fico bravo. Nem teria motivo para isso. Somente um pouco constrangido em pensar no quanto a pessoa acredita em mim; mais ou menos como ficava embaraçado quando um promotor me entregava um panfleto de um apartamento de um milhão de reais. Aquela dúvida se a pessoa está falando sério, se acredita realmente naquilo, ou se está apenas fazendo o básico para manter um diálogo.

Uma vez uma promotora sorriu abusando do perfume e piscar de olhos para me entregar um folheto e me convidar para ir ao lançamento do apartamento, tomar um drink de cortesia. Você consegue adivinhar o preço de um imóvel pelo nível de beleza das suas promotoras e aquela parecia ter sido recrutada na porta da Victória Secrets. Era tão bonita que só entendi direito o que ela estava dizendo quando estava com o folheto na mão e mesmo assim achei haver algum engano. Comecei a rir.

– Minha senhora, olha a sola do meu tênis, está descolando. Olha a mancha da minha camiseta. Já viu o meu cabelo? A senhora acha que eu realmente tenho condições de comprar um apartamento desses?

Ela não soube o que responder, mas relaxou quando dei risada. Eu não tinha dinheiro sequer para comprar o panfleto feito em papel tão caro que podia ter sido usado no convite do batizado da Rainha Elizabeth. Devolvi o folheto, sem constrangimento algum, na esperança de que conseguisse pelo menos arrancar uma gargalhada da Gisele Bündchen de Pinheiros, mas ela já estava sorrindo e entregando seu folheto para o próximo da sua fila. Ingrata.

Assim como acontece quando sou abordado pelos promotores de imóveis, também tenho alguma piada autodepreciativa para quando me perguntam sobre meus livros.

– Minha senhora, você já viu as coisas que eu escrevo? Quem ainda lê fantasia depois daquele final de Game of Thrones? E essas histórias de horror que não dão medo. Encontrei um livro meu em um sebo e quando abri, encontrei uma dedicatória para a minha mãe. Quer comprar poesia, jovem?

Geralmente a piada termina por aí e podemos voltar a falar sobre as coisas insuportáveis que realmente pagam as contas, como design, publicidade, tráfico de órgãos e contrabando de drogas. (Brincadeira, eu nunca contrabandeei drogas).

Ocasionalmente, porém, alguém me faz a pergunta de um milhão de reais, aquela com que a maioria dos autores se depara em algum momento em sua vida, de um jeito ou de outro. “Mas porquê você não ganha dinheiro com isso?”

As luzes escurecem, as palavras são consumidas pelo vento, os violinistas do Titanic iniciam sua última apresentação e eu suspiro, ruidosamente, pronto a desabafar dados sobre o mercado, número médio de livros lidos por brasileiros, porcentagem de direitos autorais e mais uma centena de outras informações que em resumo dizem sempre a mesma coisa: escrever vai continuar sendo meu passatempo de rico, mesmo que eu ainda não seja rico.

A verdade é que eu acho difícil falar sobre vendas. Toda vez que penso sobre o fato de ter vendido tão pouco, acabo me perguntando também onde estou errando e o que posso fazer para mudar isso. Trocar o gênero literário, fingir doença, montar minha própria editora, ameaçar a paz mundial, virar youtuber, tiktoker ou o que quer que esteja acontecendo no momento. O resultado de acabar inundado por tantas perguntas é que eu sinto sobre os ombros todo o peso de escrever para alguém e quando não escrevo para mim mesmo, eu travo.

Não dá para viver de venda de livros no Brasil. Você pode até conhecer um caso ou outro, mas mesmo entre nomes famosos, a publicação dificilmente paga os boletos. Como regra geral escrever é a segunda ou terceira profissão dos escritores, muitos trabalham com algo relacionado às letras: revisão, tradução, edição, palestras, ou mantém colunas em algum veículo, sendo remunerado de alguma outra forma. Vender livros é difícil. Com cinco mil livros vendidos um autor já pode ser considerado best seller e vai ter recebido (com muita sorte) uns 20 mil reais, após um ou dois anos de vendas. Bem longe de um salário ideal. A maioria dos autores, principalmente os independentes ou os de nicho, como eu, ficam bem abaixo disso e todo o dinheiro ganho acaba voltando de alguma forma para alimentar o passatempo.

Mas eu volto a insistir: existem exceções. Pessoas que estão indo muito bem obrigado e até prosperando com suas obras. É bom tê-los como exemplo.

Gosto de pensar nas pessoas que conseguiram essa estabilidade para escrever como atividade principal. Geralmente são pessoas que se dedicaram muito para chegar neste momento, comendo muita grama, com anos de tentativa e erro. Gosto de pensar que a arte pode ser uma saída viável para alguém se emancipar de um emprego de merda ou uma vida de miséria, mesmo que isso não seja regra, nem fácil, é bom saber que existe uma saída desse labirinto.

Existe toda uma aura na arte que faz com que pessoas que ganhem dinheiro com seu talento sejam vistas como mercenárias e que até a venda de histórias seja vista como uma elitização de cultura, uma falácia que ignora sempre que um artista que precisa escolher entre comer ou produzir arte vai sempre escolher comer. Por mais mágico, que possa parecer criar uma obra “do nada”, ela ainda é feita da mesma matéria que qualquer outro trabalho no mundo: amassando feijão.

Não, eu não fiquei rico escrevendo, nem pude abandonar o meu emprego e tudo bem se continuar assim, desde que eu possa continuar fazendo o que eu gosto. Sim, eu gostaria de ficar rico escrevendo (assim como gostaria de ficar rico de qualquer outra maneira), mas trabalhar com esse objetivo só me faria odiar o que hoje me alegra. Escrever, desenhar, ou qualquer outro tipo de arte é um trabalho, como erguer um muro, construir uma cadeira, contabilizar o dinheiro. Existe gente que se diverte fazendo essas coisas até de graça, mas ninguém acha um crime quem recebe para fazer o mesmo, por que com o artista precisa ser diferente?

O autor não é um ser místico, é um proletariado, trabalhando no chão da fábrica do mercado editorial, minerando ideias que vão se tornar as joias nas vitrines do shopping e como todo proletariado, ele deveria ser remunerado pelo trabalho que ele faz, para que continue fazendo e nunca lhe falte feijão para ele não ter que escolher entre terminar o livro ou pagar o aluguel daquele mês.

É por isso que fico feliz em ver gente dedicada recebendo pelo seu trabalho duro, mas se me anima pensar que algumas pessoas vão conseguir esse espaço confortável, essa mesma possibilidade me frustra quando penso na minha vida de escritor. Já houve um tempo em que quis transformar a escrita no meu ganha-pão, mas a maturidade me fez entender que a ansiedade que me causava a possibilidade de que isso aconteceria me trouxe mais dificuldades do que motivação.

Só consigo escrever livremente, enquanto estou focado na história, não nas vendas, não no público ou no editor. Trabalho muito melhor quando consigo me sentar e pensar no quanto aquilo será divertido (mesmo com toda frustração e sofrimento envolvido), mas isso envolve ter os boletos pagos, o aluguel em dia e o potinho das cachorras com ração de qualidade, o que me obriga a ter outro trabalho e a manter o dinheiro fluindo.

Dia desses assistindo a um tutorial de desenho, ouvi a artista perguntar: “por que você precisa desenhar para ser o melhor e ganhar dinheiro, você não pode apenas desenhar por que gosta?” Era uma pergunta simples, mas que trazia uma mudança de paradigma importante. A partir daquele pensamento eu voltei a desenhar com uma certa constância. Os desenhos não tinham tema ou objetivo. Eram só o desejo de preencher uma página que estava em branco e vi algo mágico acontecendo imediatamente enquanto o desenho ficava mais solto, ganhava um acabamento melhor, se tornava mais nítido e cada vez melhor. Era o medo de errar, a necessidade de fazer uma obra-prima a cada traço que estava me segurando naquele lugar.

Tenho tentado usar a mesma técnica para escrever. Ao invés de tentar escrever um texto genial depois do outro, agora eu sento e experimento, sabendo que está tudo bem se não der certo. O resultado é conseguir produzir mais e com mais constância, mesmo nos piores dias, mesmo quando o trabalho que paga as contas tenha sugado a minha alma durante o dia, mesmo que eu não tenha a mais remota ideia do que quero escrever quando abro o computador, escrevo para manter o movimento e do movimento vêm a matéria-prima para a reescrita.

Escrever me dá a musculatura para suportar a vida, mesmo que nunca vá me deixar rico, me ajuda a poupar alguns trocados com a terapia e a manter intacto o meu réu primário, para a tristeza do meu advogado. Talvez, no fim das contas, eu esteja realmente ganhando dinheiro escrevendo essas tolices, mantendo o uso de fármacos em doses baixas e garantindo que meus pais não tenham um ataque cardíaco ao me ver no jornal depois de cometer um múltiplo homicídio.

Então a resposta é: “Não, querido. Não fiquei rico e nem parei de trabalhar, para escrever livros, mas obrigado pela confiança. Talvez isso aconteça um dia, muito provavelmente não, mas está tudo bem. Não tenho tempo para ficar pensando sobre isso. Ainda tenho algumas histórias para contar, antes que essa vida acabe.”


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