É só o fim do mundo de novo
On February 21, 2022 | 0 Comments

Como toda criança dos anos 1980, eu era assombrado pelo fim do mundo. Talvez essa afirmação seja engraçada para quem nasceu mais tarde, mas a ameaça de um apocalipse global era uma constante na TV, graças as rusgas causadas pela guerra fria entre União Soviética e os Estados Unidos. Ao toque de um botão, o lançamento das ogivas nucleares de ambos os países podiam acabar com tudo o que existia, dezenas de vezes, como se uma só já não fosse o suficiente.

A ameaça de guerra era uma constante em praticamente tudo, se espalhando tanto pelos telejornais quanto filmes e séries onde o americano bonzinho salvava o dia vencendo os russos malignos em todos os campos, da espionagem as lutas de boxe. Rocky IV está aí e não me deixa mentir. Era bom ter do “nosso lado” a águia da liberdade americana. Não me julguem, eu era só um moleque alienado pelo “American Ninja”.

Para uma criança acho que era difícil separar o que era filme e o que era notícia. Aos meus olhos, entre anúncios de tropas e cenas de explosões, uma profusão de bundas na banheira e piadas sobre AIDS e homossexualidade, era como se o mundo já estivesse em guerra o tempo todo. E como se um avião a qualquer dia nos bombardeasse de volta para a idade do bronze.

Eram tempos estranhos, onde violência e sexo na TV ajudava a formar o caráter das crianças. Ao mesmo que acompanhávamos o avançar dos ponteiros do relógio do juízo final nas manchetes, tomávamos achocolatado e éramos bombardeados por pérolas da sessão da tarde como “Def-Com 4: Condição de defesa”, em que um grupo de astronautas volta para a Terra depois de uma guerra nuclear apenas para encontrar a humanidade reduzida a um grupo de canibais, ou o “Dia seguinte”, que tentava ficar com o pé no chão, mas cujas cenas de pânico e barbárie profetizavam o inferno que se seguiria para os sobreviventes das explosões nucleares enquanto a civilização desmoronava.

Eram todos os mesmos filmes, na minha cabeça, com a voz do Cid Moreira anunciando faltar um segundo para a meia-noite.

Nada me apavorava mais do que o cogumelo atômico. Os pesadelos eram frequentes, o que me tornou uma criança, no mínimo, estranha. Interessada em saber como estocar comida, fazer um arco-e-flecha e quais ervas serviam para curar quais doenças. Eu estava sempre com medo, mesmo quando um adulto me dizia que o Brasil ficava longe daquelas guerras, eu desconfiava que se alguém estivesse a salvo, não se chamaria fim do mundo.

Com o fim da URSS e da guerra fria, a ameaça nuclear perdeu a força, assim como a presença dos russos como vilões do cinema, mas o mundo ainda não estava seguro. O fim da civilização esteve na balança por diferentes motivos: ameaças de guerra, bugs de computador, profecias sobre o sol, ataques com armas químicas, colisão de meteoros, massacres e mais massacres, aquecimento global, fome, guerra, morte e a peste. A morte era televisionada, a guerra acontecia ao vivo. Os massacres chegavam a mesa de jantar enquanto ainda estavam acontecendo, ou eram completamente apagados, como se nunca tivessem acontecido, até que os ossos começassem a despontar rebeldes das suas valas coletivas. O pesadelo agora tomava varias feições entre os quais a explosão nuclear era apenas mais um, mas na TV ainda estávamos a salvo, graças ao escudo ocidental da liberdade. God save the America!

Aqui estamos, no fim do mundo, de novo. A humanidade lutando contra uma pandemia mundial, uma doença que se adapta e avança, nos devorando lentamente enquanto as pessoas no poder ficam a cada instante mais insanas e as pessoas sem poder ficam cada vez com mais medo. Enquanto tem presidente achando boa ideia distribuir armas para uma população a beira do ataque de nervos, do outro lado do mundo, dois antigos rivais resolvem medir suas pirocas atômicas.

Nesses trinta anos, acredito que as coisas mudaram um pouco. Nessa altura já é difícil para os americanos se venderem como os mocinhos de um filme de herói e a gente já sabe que se depender deles, estamos todos na merda. Isso também não quer dizer que Rússia ou China sejam bonzinhos. Só significa que não existe ninguém do nosso lado. Em uma luta de elefantes, quem sai machucado é a grama, diz o ditado. A grama é o resto do mundo.

A morte era televisionada, a guerra acontecia ao vivo.

E eu voltei a sonhar com cogumelos atômicos. Corpos carbonizados, pessoas derretendo ainda vivas, ou sobrevivendo para se tornar outra coisa, que já não seria humano. Os mutantes de Defcon-4, canibais famintos, que trocaram a humanidade pelo desejo de sobreviver a todo custo.

Não tenho certeza se as outras crianças dos anos 1980 também tem esse pavor. Fico imaginando se elas sentem o mesmo frio na espinha que eu sinto quando vejo alguém orgulhoso de uma ogiva nuclear capaz de voar na velocidade do som e destruir uma cidade em 5 minutos do outro lado do mundo.

Será que aqueles que nasceram depois da queda do muro de Berlim também têm esse tipo de pavor ou já foram doutrinadas a odiar chineses, árabes, mexicanos e negros, como manda a cartilha americana?

É segunda-feira, faz sol, la fora eu ouço os trabalhadores rindo enquanto chegam para trabalhar em uma obra. Um pássaro canta. O trecho de céu que vejo da minha janela é de um azul quase fictício. Uma brisa fresca entra pela porta. Minha cachorra abana o rabo. Quatro minutos atrás alguém muito nervoso apertou um botão, mas eu só vou saber dentro de um minuto.

É só o fim do mundo de novo. Voltei a ser criança e a não sei o que ainda existe de real neste mundo.


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