O evangelho do ódio
On July 5, 2021 | 0 Comments

Tenho poucos desafetos, mas os poucos que eu tenho, preservo com carinho e uma memória que não dedico a tantas outras coisas. Se a lista é curta, ela foi escrita em pedra e dificilmente será desfeita. Não encontro perdão para o ódio, o que não quer dizer que odeio com facilidade. Muita gente que me fez mal segue seu caminho sem que eu mal me lembre disso, mas aqueles que estão na lista dificilmente sairão dela nesta vida.

Meus rancores são tão poucos que os guardo como quem guarda um tesouro raro no fundo do armário. Na maior parte do tempo não vou pensar sobre eles, mas é melhor que ninguém os traga a tona. Não pensar sobre eles os tornaram algo bastante misterioso no meu processo de autoconhecimento. Assim como parece um mistério o motivo pelos quais os odeio com tamanha dedicação. O que faz alguém ser perdoado ou não? O que faz um nome poderoso o suficiente para estragar o meu dia, ou irrelevante demais para merecer minha memória? Quais são os pecados de meu evangelho que condena alguém a perdição eterna?

Quando no divino pacto que é feito na igreja pedimos a Deus que perdoai as nossas ofensas, como perdoamos a quem nos tenha ofendido, somos espertos o suficiente para deixar uma brecha no contrato, pois nada nos impede de seguir odiando a quem tenho ofendido nossos amigos. E esse é o primeiro pecado.

Da curta lista que tenho em mente, das pessoas que gostaria de assistir pegando fogo enquanto tomo café da manhã, a maior parte não me fez nada. Alguns, pasmem, provavelmente nem me conhecem, mas isso não me impede de apagar as chamas com um tamanco, apenas para besunta-los com gasolina e começar tudo de novo. São pessoas que em um momento ou outro fizeram algum mal à alguém próximo. O ex-namorado de uma amiga, o professor de um colega, a ex-mulher de um amigo meu. Gente que sem saber, foi tema de conversas desatentas no meio da noite. Gente que muitas vezes meus amigos perdoaram, mas que vão continuar para sempre nas minhas preces de ódio. Durando até mais do que a minha amizade. Sou desses. Mantenho nessa lista chefes assediadores, namorado(a)s abusivo(a)s e toda sorte de merda que merecia ser limpa do sapato da história. Mexer com algum amigo meu é receita certa para se tornar vítima de um acidente de trânsito. Juro que sorrio quando penso sobre isso.

Meus rancores são tão poucos que os guardo como quem guarda um tesouro raro no fundo do armário.

Na segunda leva estão os espertos contumazes, os arrogantes inveterados, os malandros notórios, todos aqueles que mentem, enganam e tratam a humanidade como idiota. Gente que atravessa a vida com desonestidade sem sofrer represálias. Aqui encaixo algumas pessoas que me fizeram realmente algum mal. Chefes terríveis, colegas de caráter duvidoso e todo tipo de gente que tratou alguém como idiota. Novamente, a pessoa não me conhecer, não chega a ser relevante. É claro que sou obrigado a colocar nessa lista políticos e personalidades.

No terceiro e último item da minha lista de rancores, estão os prevaricadores. Todos aqueles que puderam impedir algo de errado e não o fizeram e o nome que reina supremo no topo desta lista, sou eu mesmo, pois sou incapaz de me perdoar por todas as vezes que devia ter dito algo e fiquei calado.

O perdão é um exercício difícil. Se perdoar é uma tarefa quase impossível. Carrego comigo todos os erros do meu passado e sinto um choque percorrendo meu corpo toda vez que esbarro na memória de algum deles, mas se tem algo que realmente tira o meu sono, são as lembranças de todas as coisas que eu vi de errado e deixei passar, porquê não eram problema meu. O pai abusivo com seus filhos, o rapaz que forçou um beijo na garota da balada, o malandro que recebeu o troco errado e não devolveu. Gente comum, nos seus pecados diários, que eu podia ter repreendido, mas deixei passar. Gente que não entrou na lista, mas garantiu meu lugar no topo dela.

Minha lista de rancores é pequena, mas foi escrita com fogo e preservada em pedra. Nela estão escritos todos os meus pecados e talvez dois ou três outros pecadores, pois quando oramos o pai nosso, esquecemos, quase que intencionalmente, de nos perdoar, assim como perdoamos os outros.


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