A cicatriz na estante
On September 28, 2020 | 0 Comments
cicatriz na estabte
Photo by Karolina Grabowska on Pexels

Eu tenho uma cicatriz na estante. A maioria de nós tem uma. Aquele buraco que ficou aguardando o livro que nunca teremos de volta. Com o tempo a cicatriz se fecha, outro livro ocupa aquele lugar, aos mais fanáticos, outra edição, uma cópia. Minha cicatriz é como essas, apenas mais profunda.

Vez por outra eu resolvo consultar algum livro que não está mais lá e sou obrigado a lidar com a falta. Para a maioria das pessoas a cicatriz é aleatória, a minha é bastante específica, tomando uma sessão inteira de tudo aquilo o que eu mais gostava. Meus livros do Borges, minhas coleção do Saramago, Mayrant Gallo, Dostoiévski, Guimarães Rosa, Leminski, Milton Hatoun, algo de Kafka, Lispector, Drummond e Pessoa. Minha cicatriz foi construída com uma precisão quase cirúrgica, uma vingança mesquinha de um relacionamento corrosivo.

Um golpe tão inteligente e sofisticado que através dos anos não pode ser esquecido. Sempre que me acostumo com alguma ausência, como quem se acostuma com os limites impostos de uma ferida, logo encontro outra falha que me faz lembrar quais são os meus novos limites.

É das pessoas mais próximas que surgem os golpes mais duros, precisamente porquê elas o conhecem melhor e sabem exatamente onde vai doer. Imagino o ódio necessário para passar pelos livros, os dedos na lombada, pinçando tranquilamente aqueles que me fariam mais falta. Deliberadamente deixando para trás aqueles que de fato pouco importava.

Essa cicatriz, que se espalha pelas prateleiras como um recorte de tudo o que eu poderia ter vivido e das coisas das quais eu gostaria de me lembrar é a mesma que não me deixa esquecer das escolhas que eu fiz e os erros que eu cometi, mas também me dão a certeza de que eu estava certo em meu julgamento.

Dos livros me sobram memórias e faltam páginas que eu vou substituindo aos poucos ao longo dos anos, até que da cicatriz não exista mais nada. As estantes vazias vão se encher novamente, as histórias vão retomando seus lugares. O que vai restar desta ausência será uma linha de novas lombadas, pele nova sobre a carne aberta, enquanto em algum lugar expostos como troféu de caça, todos os livros que um dia fizeram parte de mim apodreceram, como lembranças que não irão embora.


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