Presságio
On November 8, 2021 | 0 Comments

O presságio esmagado no asfalto ia sendo devorado pelas formigas com velocidade, mas ainda podia ser reconhecido. A primavera chegou com os ninhos, a fartura das árvores frutíferas, as flores cheias de insetos, a comida que escorria pelo canto da boca e se espalhava pelo chão para um enxame de ratos e baratas, a abundância e o crescimento desenfreado. Pássaros que lutaram pela cópula e agora vigiavam os rebentos nascidos. Uma vastidão de vida e fertilidade, que chegando ao seu máximo agora transbordava, espalhando-se como carniça colado ao piche novo. Era o segundo passarinho despenado que eu via esmagado no quarteirão. Não queria olhar para ele novamente.

Já fazia umas semanas que eu alimentava pensamentos sobre a mortalidade. Meu aniversário veio e se foi deixando como presente a dor nas costas de um velho, que combinavam bem com meu manquejar de tíbia partida e os fios de prata que despontavam na barba. Em negação, porém, minha pele se voltava para a adolescência, se enchendo de acne, sem motivo algum exceto uma teimosia gelatinosa em deixar-se enrugar. Com a idade, os festejos, os amigos, vinham os pensamentos sobre o fim, começos e o tempo que nos resta. O pássaro amassado no chão, com o bico bidimensional e a linguinha de fora, como um desenho animado fora do tempo, não se levantaria como se tudo tivesse sido uma brincadeira, assim como eu também não poderia começar de novo.

Depois do meu aniversário veio a doença do meu pai, uma mistura de pirraça e teimosia que misturadas resultaram em uma glicemia tão alta que causava espanto até nas máquinas de medição, envelhecendo-o vinte anos em poucos dias. Tornando-o uma criança confusa que não sabia onde estava, sem qualquer condição de tomar decisões por si mesmo. Foram semanas difíceis, cheias de ofensas veladas, provocações dissimuladas, ameaças explícitas e todo o arsenal de culpa que minha família aprendeu a provocar tão bem. Recuperada a saúde, restava a dúvida sobre quem eu seria na sua idade. O que eu teria feito? Quais seriam os meus arrependimentos? Pouco além da metade do caminho eu já estava exausto.

Por fim vieram os pássaros mortos e, depois deles, o pedido de ajuda de um vizinho, para reconhecer um gato que tinha passado a manhã esticado no gramado, imóvel debaixo da força do sol. Pacífico, olhos fechados, pelo lustroso, as patinhas para o lado e o rabo em curva, ao modo dos gatos, descansava sereno depois de esgotada sua sétima vida. As moscas a vasculhar suas cavidades com avidez pornográfica, as formigas a espalhar pelo reino a notícia sobre o banquete. Reconhecido o gato do meu vizinho, lembrei dele saltando sobre o meu telhado, ou disparando pelo corredor da minha casa, provocando a reação furiosa das minhas cachorras. Um dia antes ele tinha estado naquela mesma posição, sob aquele mesmo sol, diante da porta do meu vizinho, balançando o rabo marrom, elegantemente, lutando contra o excesso de luz com um piscar longo e cheio de charme. A cauda felpuda não balançaria mais. Os olhos felinos, não se espremeriam em graça. Tinha partido. Deixou para trás apenas a difícil tarefa de comunicar ao seu tutor, que não voltaria mais para casa.

Tenho andado mais triste do que o normal e os remédios já não ajudam como antes, mas não é dessa tristeza que vem esses pensamentos sobre a morte, mas justo ao contrário. Pensar em como o nosso tempo é limitado e sobre tudo o que não vou conseguir terminar é o que realmente anda alimentando minha ansiedade e tristeza. Enfiado nesse infindável axioma de improdutividade e culpa, que nos torna cada dia mais exausto e menos produtivo. Uma bola de neve que só para de rolar quando se choca com a lápide. Ou mais além.

Esta ai uma boa definição de inferno. Da janela da morte, ser capaz de enxergar a vida de ponta à ponta e reconhecer tudo o que devia ter sido feito, sem corpo ou controle para mudar mais nada. Ser acusado por todos os minutos perdidos, as chances desperdiçadas, os beijos não dados, as viagens não feitas, ser arrastado para o fundo do mar da agonia pelo peso de todas as palavras não escritas. As toneladas de histórias natimortas, os personagens meio-formados agarrados as nossas pernas em busca de ar, luz. Vida.

O presságio esmagado no asfalto ia sendo devorado pelas formigas com velocidade, mas ainda podia ser reconhecido. Suas asas não tinham se formado, seu corpo nu e cinzento não tinha recebido o batismo das cores. O bico partido agora só cantaria o silêncio. Era um retrato imutável de tudo o que poderia ter sido, afundando no piche pela violenta roda do tempo.

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