O caminho errado
On September 5, 2020 | 0 Comments

Era mais uma noite em que eu saia tarde da agência, quando uma frase surgiu em minha mente: “A vida é feita de dois caminhos e parece sempre que estamos no caminho errado.” Eu não sabia até onde aquele pensamento podia me levar, mas logo descobri.

O escritório vazio era assombrado pela luz mortiça dos computadores em hibernação. Todos já tinham ido embora. Era quase meia noite quando desliguei as luzes da agência e fiquei na dúvida entre encontrar um lugar para jantar alguma coisa rápida ou simplesmente ir para casa dormir. A lembrança de que que precisava estar de volta ao trabalho as oito para aprovar o material que tinha acabado de enviar me fez decidir ir para casa. “A vida é feita de dois caminhos.”. O meu, naquela noite, era a cama. Deixei para trás os fantasmas nos monitores ociosos e peguei o elevador pensando em meu travesseiro.

Já tinha me acostumado com a rotina da agência. Era tão comum sair tarde que quando o trabalho acabava cedo íamos todos beber em algum lugar. Dificilmente estava em casa antes da meia noite. Nunca antes das dez. Quando um dos sócios “me presenteou” com a chave da agência, foi como se me dessem a chave da minha própria prisão, mas eu continuava me trancando por dentro.

Quando o dia acabava, o escritório ia ficando cada vez mais vazio, até que o silêncio se tornava absoluto. Era quando eu ligava a música alta para continuar o trabalho. Aproveitava aqueles momentos que ninguém estava conectado para usar o Limewire e baixar novas músicas. As vezes o trabalho tinha terminado e eu precisava apenas esperar o motoboy retirar o CD com os arquivos para a gráfica, era o momento ideal para tentar ouvir e renomear os arquivos que quase nunca batiam com as músicas de verdade. Os primórdios da internet eram a selva, mas manter as coisas organizadas me distraía do cansaço.

Em dias como aquele eu me perguntava se tinha feito as escolhas corretas. Parecia haver um ponto em algum lugar no passado onde as coisas tinham se desviado, lentamente, um passo de cada vez. Estava vivendo fora do meu mapa a muitos anos. Improvisando a cada passo na esperança de que em algum momento eu voltaria ao meu verdadeiro caminho.

Na rua, coloquei os fones de ouvido. Tinha comprado um MP3 do tamanho de um canivete suíço, suprassumo da tecnologia, com um mostrador digital que que lia o nome do arquivo para anunciar a música que estava tocando. The Fallen de uma banda chamada Franz Ferdinand, cuja letra em inglês eu nem tentava adivinhar, mas me fazia bater o pé e andar em cadência, como se quisesse dançar no meio da rua, mesmo exausto.

Do meio do quarteirão vi o ônibus verde no cruzamento e saí correndo. Se perdesse aquele, só deus sabia quando apareceria outro. O tumtumtum da corrida seguia o ritmo da música, como se meus ossos fossem algum tipo de instrumento rítmico. Cheguei na esquina sem ar, mas era tarde. Sacudi os braços na esperança de que o motorista me visse pelo retrovisor. “That the fallen are the virtuous among us/ Walk among us/ If you judge us/We’re all damned

Só quem já viu o último ônibus indo embora no meio da noite sabe a verdadeira sensação do abandono.

Era difícil saber o que fazer naquele momento. Podia ficar ali e esperar por um ônibus que não sabia se viria ou podia andar alguns quarteirões para algum lugar mais movimentado e esperar por outro ônibus que talvez também não passaria. A vida é feita de dois caminhos e escolhas erradas.

O farol nas minhas costas me fez sair da rua antes que eu ouvisse o motor do ônibus. Fiquei cego por alguns instantes, mesmo assim dei sinal, por puro reflexo. Duvidava que fosse meu ônibus, mas as vezes era só uma questão de sorte. Poucas linhas passavam por aquele ponto, na verdade eu não me lembrava de nenhuma que não fosse o que me levava para casa. O ônibus parou com um suspiro aliviado do motor, abrindo as portas da frente. Me agarrei no corrimão e pisei na escada, como quem segura um touro pelos chifres, antes de perguntar se era o 477P. O motorista engatou a marcha, bufando impaciente e eu pulei pra dentro, temendo que ele arrancasse e me deixasse naquele lugar. O motor roncou, o piloto respondeu alguma coisa que não consegui ouvir e apontou para trás. Se fosse o ônibus errado, pelo menos eu podia descer em algum lugar mais movimentado. Aceitei o destino como sorte.

O cobrador cochilava e não conseguiu me ajudar muito. Era um homem grande e molenga que balançava de um lado para o outro ameaçando cair da cadeira alta. A catraca apitou quando encostei o bilhete eletrônico fazendo um barulho tão alto que tive medo daquele homem imenso acordar irritado comigo. O temor se provou infundado, ele não acordaria nem em um acidente.

O ônibus estava quase vazio. Era uma das vantagens de sair tarde: evitar as horas de trânsito confinado em lugar lotado. Haviam talvez outras quatro pessoas, todas parecendo dormir depois de um dia de trabalho. Me conformei em sentar na janela e vigiar o caminho, até conseguir pedir informação para alguém. Senti o corpo inteiro relaxar. Se fosse o meu ônibus eu poderia dormir e acordar no ponto final. Era só procurar um lugar perto do cobrador para não ser esquecido ali dentro outra vez. Sem saber que ônibus era, escolhi ficar perto da saída, caso precisasse pular para fora quando o ônibus desviasse do caminho. “A vida é feita de dois caminhos”. O diabo da frase continuava me assombrando e eu tentava descobrir de onde ela vinha, ou onde ela poderia se encaixar em uma história. A imagem de um homem parado em uma bifurcação surgia. Enquanto ele tentava descobrir para que lado seguir, eu tentava descobrir quem ele era. Havia uma história ali, eu podia sentir.

O caminho errado
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O ônibus fez uma parada brusca e fui lançado para frente, assustado. Eu tinha dormido, ou estava divagando? O cobrador continuava balançando, mole como um brinquedo de pano, a porta de trás se fechava denunciando alguém que tinha descido, enquanto uma figura subia pela porta da frente.  Um senhor baixo, com chapéu pescador e um guarda-chuvas molhado, mesmo sem qualquer nuvem no céu naqueles dias. Ele girou a catraca sorrindo para mim, sem acordar o cobrador. Fiquei feliz com a sua chegada. Finalmente saberia para onde estava indo.

Algo em minha expressão talvez denunciasse a minha angústia, pois ele caminhou direto para mim, quase como se me reconhecesse. Sua voz era arranhada como a de um fumante quando me deu boa noite, e ignorando todos os bancos vazios, escolheu se sentar ao meu lado. Foi o suficiente para me deixar irritado.

Era tarde, eu estava cansado. Queria muito saber que ônibus era aquele, mas um senhor bem mais velho se sentando ao seu lado em um ônibus vazio nunca era um bom sinal. A atitude me dava duas escolhas: Podia continuar quieto, olhando pela janela na tentativa de descobrir para onde estava indo, ou podia tomar coragem e perguntar para aquele senhor que ônibus era aquele, correndo o risco dele pensar que estava lhe dando assunto para passar o resto da viagem falando enquanto no fim eu só queria dormir. Isso na melhor das hipóteses. Na pior… “A vida…

– … É feita de dois caminhos.” – A voz do velho soou tão tranquila que talvez tivesse sido a minha imaginação, mas ele continuou. – Parece sempre que escolhemos o caminho errado, mas é só porquê o outro caminho continua um ignoto.

Não havia uma gota de sangue nas minhas veias quando ele pausou. Não conseguia me mover, nem conseguia piscar. Meu pescoço estava travado na sua direção, enquanto eu tentava entender se aquilo estava mesmo acontecendo.

– Você sabe o que ignoto significa?

Tentei responder, mas minha voz havia desaparecido. O máximo que consegui fazer foi estremecer a cabeça de um lado para o outro, tentando negar. Negar que sabia, negar que estava prestando atenção, negar aquele homem sentado ao meu lado, negar que ele tinha acabado de falar o que eu estava pensando.

– Ignoto é algo desconhecido. Como “A Rainha do Ignoto”. Já ouviu falar de Emília Freitas? Você iria gostar dela.

Talvez eu estivesse dormindo. Era possível que tivesse entrado no ônibus e cochilado. Faria mais sentido.

– É melhor não dormir. Se você dormir no ônibus pode acabar no ponto errado e se perder. Algumas pessoas se perdem e nunca voltam para casa. Uma mulher na Índia dormiu no ônibus e desceu no lugar errado. Acabou em uma cidade onde ninguém falava a sua língua e não conseguiu ajuda para voltar para casa. Viveu na rua por anos sem conseguir falar com ninguém, um dia acabou sendo presa por algum motivo bobo e descobriram a história dela, mas daí já não servia de nada. Ela estava presa, entende?

Ele estava inventado. Era impossível dormir tanto, a não ser que você morasse na fronteira entre dois países, mas eles pediram os documentos dela se mudasse de país, não pediriam? Senti pena. Não era justo.

– Sei que não é justo. Quase nunca é. Você trabalha até tarde, perde o ônibus, dorme, e sua vida muda. É melhor prestar atenção no caminho.

Não podia ser coincidência.

O senhor sorriu e deu duas palmadinhas na minha perna antes de se levantar.

– É só ficar acordado que vai ficar tudo bem.

A impressão foi que ele tinha acabado de entrar, mas já estava dando sinal. O ônibus parou com um chispado irritado do motorista que reclamou alto, alguma coisa que eu não conseguia entender. O senhor gritou um pedido de desculpas enquanto a porta se abria. Ele sorriu uma última vez e desceu. Eu não havia dito nenhuma palavra.

Olhei pela janela, esperando que o velho fosse desaparecer em pleno ar, como uma assombração, mas ele balançou a mão com simpatia, me desejando boa viagem. A rua estava escura, mas posso jurar que atrás dele vi uma placa em chinês de um restaurante que eu nunca tinha notado antes.

O ônibus fez outra curva e o perdi de vista. Me lembrei que ainda não sabia em que ônibus estava. Pensei em descer no próximo ponto. Olhei pela janela procurando qualquer coisa distinguível. Se soubesse onde estava, seria mais fácil me decidir. Vi um outro ônibus virando para a direção inversa. Por um instante pude ver um rapaz na janela que olhava para mim assustado. Parecia familiar, mas logo o perdi de vista.

Ruas escuras eram cortadas pela luz dos postes. Era impossível ler as placas e eu tentava reconhecer a arquitetura. Dava impressão de que o ônibus estava parado e o mundo girava do lado de fora. Cada quarteirão com uma arquitetura diferente, como uma roleta da sorte. Todas as cidades são assim, não são? Principalmente as grandes e São Paulo era imensa. Colônias de todos os lugares do mundo, anos de destruição e reconstrução. Prédios modernos como colônias espaciais e casinhas centenárias com nichos sobre a porta para uma santa protetora. Templos xintoístas, mesquitas e centros de meditação guiada. Todas as cidades são assim, não são?

Haviam poucas pessoas na rua àquele horário. O ônibus passava por elas, tornando-as pouco mais do que um borrão na pouca luz; figuras espectrais que se desfaziam na fuligem das janelas sujas. Algumas ligeiramente distorcidas pelo jogo de luz e sombras. Altas como postes ou diminutas como crianças de colo vestindo roupas de adulto. Senti meu estômago embrulhado, como se estivesse dando uma volta de montanha russa.

Olhei para a janela do outro lado do ônibus e fiquei assustado quando percebi que chovia pesadamente. Através da cortina d’água, São Paulo parecia submersa, tomada por domos e circundada por submarinos luminosos que buscavam a superfície. Do meu lado do ônibus, nenhuma gota, só a escuridão, vultos estranhos e uma arquitetura confusa. O ônibus parou por um instante e eu pude ver uma mulher de meia-idade parada na frente da casa em roupas íntimas. Ela sorriu e fez um gesto me convidando a descer. O ônibus arrancou novamente. Quando a chuva parou de escorrer do outro lado do ônibus eu vi a silhueta de uma pirâmide maia no meio das árvores. Tomei um susto. Vi então o luminoso de um motel. Comecei a rir sozinho.

Estávamos em uma via expressa, sendo ultrapassados por outros veículos a toda hora. A expressa era margeada por árvores altas, algumas altas demais. Árvores comuns, eucaliptos e ipês, e outras árvores que eu não reconhecia, mas não pareciam ter nada de estranho. Vi algo que se movia entre elas. Comprido e magro, como um bicho de pau, ou uma lenda urbana, ou talvez fosse apenas efeito do ônibus se deslocando diante das árvores. O motorista reduziu e buzinou. Eu olhei para as árvores a procura da coisa que parecia se mover, mas não conseguia enxergar mais nada. Parecia tudo quieto. O ônibus continuava a buzinar. Eu me distraí tentando entender o que estava acontecendo. Quando olhei novamente pela janela, dois pontos luminosos surgiram no meio da mata, bem a minha frente. Era impossível saber o que eram, mas pareciam olhos voltados para mim.

O motorista buzinou pela terceira vez e por fim arrancou para o lado, desviando de uma carroça conduzida por um homem que segurou a aba da cartola para um cumprimento. Na carroça havia um caixão aberto, dentro dele uma múmia em tecidos coloridos, com uma máscara de ouro na forma de algum animal. Senti a sanidade me deixar.

O ônibus parou. Estava tão distraído tentando respirar que não percebi que era o último passageiro ali dentro. A porta de trás se abriu e eu vi os olhos do motorista me procurando através do retrovisor. Ele reclamou novamente, mal-humorado, naquela língua estranha. Não entendi uma palavra, mas estava na cara o sentido. Ele ameaçou arrancar. Não tive tempo para tomar uma decisão de verdade. Saltei para fora um segundo antes dele fechar a porta e acelerar para longe. Olhei ao redor temendo o que iria ver. Pirâmides do passado, cidades submarinas, criaturas da floresta. Nada. Respirei aliviado. Estava praticamente em casa.

Durante um tempo eu evitei ir embora sozinho. Preferia pegar um taxi, ou encontrar um amigo para beber e pegar uma carona depois. Logo em seguida eu mudei de trabalho, não por escolha, as coisas simplesmente aconteceram, depois mudei de casa e então a linha já não me atendia. Já faz quinze anos, mas sempre penso naquela noite e me pergunto se aquilo aconteceu, ou se eu simplesmente dormi e sonhei com tudo.

A cada ano, fica mais difícil saber a resposta, ou talvez eu simplesmente tenha medo dela. Medo de saber que tudo aquilo realmente aconteceu. Medo de descobrir que foi um sonho e eu adormeci. Pois se adormeci, como vou saber se cheguei mesmo onde precisava chegar? Ou se acabei apenas em um caminho, muito parecido com o meu?

Notas Sobre o Caminho Errado

Este conto foi originalmente escrito para a Gazeta Ordinária, mas acabou tomando o caminho errado e ficando grande demais. Por isso, veio parar aqui nesta sessão. Se você gosta deste conteúdo, pode assinar a Gazeta e receber um novo conto a cada duas semanas. Não custa nada além da minha gratidão eterna. O que acha?

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