Conto : Cachorro-Quente
On April 27, 2019 | 0 Comments

Faltam doze pessoas para a fila dobrar o quarteirão e Eduardo alcançar a barraca de cachorro-quente. Seu estômago continuava implorando. Havia acordado cedo e saído sem café, mas nada daquilo adiantou, quando chegou a fila já fazia voltas e voltas, como uma centopeia infinita, dando passos invisíveis. Agora faltavam doze pessoas e Eduardo chegaria ao carrinho de cachorro quente. Não tinha ideia de quantas pessoas faltavam para a entrada, já tinha abstraído aquele número. O carrinho de cachorro-quente estava ali, era real. Eduardo podia sentir o cheiro da água rala da salsicha no ar e podia imaginá-lo com vinagrete, batata palha e milho. Purê não. Aquilo era uma mania de paulista que Eduardo nunca entendeu. Purê e batata palha, em um mesmo lanche, era algo típico de quem não sabia o que queria, ou que queria tudo para si. Quando fazia cachorro-quente em casa, acrescentava bacon torrado, mas aquilo foi em outros tempos. Sua fome era tanta que Eduardo se contentaria com um pão com salsicha mesmo. Uma pessoa, um passo. Ficam onze.

De onde vinha tanta gente? O medo de Eduardo é de que as pessoas a sua frente acabassem com o cachorro-quente. A cada passo que dava vinha um misto de alegria por estar mais perto e medo de que outros chegassem primeiro. Felizmente ninguém parecia interessado. Ou talvez não tivessem cupons.

Quase ninguém tinha mais cupons. As pessoas passavam fome. Empregos se tornavam mais raros enquanto tudo ia se automatizando. As pessoas iam sendo deslocadas para outros postos de trabalho e de lá para cá novamente. Protestar havia feito pouco efeito. A polícia abriu fogo contra um grupo que tentou invadir a sede do estado. Vinte duas pessoas morreram. Seu sangue alimentou o demônio do ódio. Protestos cada vez maiores, polícia cada vez mais violenta. O primeiro atentado a bomba, caça e captura de subversivos. Toque de recolher. Pânico. Quem foi esperto ficou longe de tudo. Eduardo era esperto. Faltavam nove pessoas para chegar a sua vez.

Procurou por algo ao seu redor que desviasse a sua atenção do carrinho. Pouca coisa havia mudado no centro nos últimos anos. O mesmo calçadão, a mesma gente miserável e mal-humorada. Um prédio havia pegado fogo. Seu esqueleto enegrecido assombrava a rua, servindo como moradia para um povo desesperado. Ninguém se importava. Tudo era igual. Vendedores ambulantes vendendo badulaques no chão em troca de uns cupons. Pregadores alertando as pessoas sobre o fim do mundo como se ninguém tivesse se ligado ainda. Patrulhas sobrevoando as pessoas, em busca de fugitivos. A mesma merda de antes. Exceto que antes você só era fuzilado se fosse preto e pobre onde ninguém estivesse olhando. Agora a única cor que estava a salvo era verde. Cinco pessoas para a barraquinha.

O vendedor já tinha percebido a ansiedade do Eduardo e passou a sorrir toda vez que seus olhos se cruzavam. Podia caminhar seis passos e lhe entregar um cachorro quente, mas prefere ficar ali, vendo sua agonia antes de chegar. Uma briga começa depois da curva, Eduardo não consegue ver o que houve, mas escuta os gritos e as ofensas, enquanto as cabeças a sua frente se voltam todos na mesma direção. Alguém toca um apito, um drone passa em um rasante. Eduardo se abaixa, escondendo o rosto da nuvem de poeira que se levanta. Um homem passa correndo para o fim da fila, se virando para trás para atirar. Eduardo quase se borra de medo, mas ninguém sai de seu lugar na fila. O homem chora muito.

– Porcos! Vocês são todos porcos! – O homem grita para as pessoas na fila. – Saiam daí! Saiam daí agora!

As pessoas se agitaram, mas ninguém se moveu. A fila era um lugar sagrado. Todos tinham a sua vez na fila.

O homem gritou mais uma vez, apontando a arma para a cabeça de uma garota. Era impossível saber se sentia medo. Tremia um pouco, mas olhava com bastante calma o desenrolar das opções. Eduardo estava perto, podia desarmar o rapaz, ficou se imaginando saltando sobre ele, lutando pela arma, jogando-o no chão com um murro e sendo beijado pela garota que tinha acabado de salvar. Um cachorro quente como prêmio em sua mão. Faltavam quatro pessoas.

– Sai daí agora! – O homem gritou para a garota e engatilhou a arma. Eduardo ouviu o barulho da pólvora antes de sentir o cheiro de ovo podre e um corpo caiu no chão cravejado de balas. O drone voou até o rapaz e confirmou o seu óbito. O que era simples, já que não tinha mais cabeça]. Todos se colocaram de pé, a fila voltou a andar depois que o pessoal da limpeza recolheu seu corpo. Outro subversivo morto, mais um entre tantos. Três pessoas e Eduardo poderia comer.

Ouviu um rapaz a frente pedindo um cachorro-quente. O vendedor pediu seus cupons, o rapaz não se importou com o preço. Eduardo achou que salivaria até desidratar quando viu o rapaz enfiando o sanduíche inteiro na boca e pedir outro. Quantos cupons ele teria no bolso? Certamente não o suficiente para comer todo o carrinho. Com o que ele tinha gasto em dois cachorro quentes Eduardo teria alimentado sua família por um mês. O rapaz agradeceu o vendedor com um sorriso, a boca ainda cheia de pão. A fila andou, Eduardo estava a um braço de alcançar o vendedor, os dois a sua frente não pareciam interessados, ou talvez não tivessem cupons o suficiente. Estavam distraídos olhando para a frente da fila. Eduardo não tinha nenhuma curiosidade, mas acabou olhando também. Tinham praticamente chegado. Era só uma portinha, por onde passava um de cada vez, ladeada por dois guardas. Do outro lado da rua um tanque de guerra reforçava a patrulha. Sobre a porta uma flâmula tinha sido estendida com a foto do Conselheiro em uma pose magnânima. Fazia pouca diferença.

– O que vai ser, amigo?

Eduardo se assustou com a pergunta. De repente era a sua vez.

– Um completo, sem purê.

– Sem purê não é completo. – O vendedor gracejou.

– Então um sem purê. Melhor assim?

– O cliente é quem manda. Três cupons.

Eduardo tinha quatro. Não faria diferença, deu todos ao vendedor. O homem apontou o equivoco, mas Eduardo insistiu. O homem agradeceu a gentileza, quando Eduardo comeu o cachorro-quente, descobriu que o vendedor havia contribuído com duas salsichas. Sorriu. Não era necessário, mas era assim que se construíam pequenas gentilezas.

Comeu devagar, um passo por vez, até ficar diante da porta do centro de processamento. Os dois guardas lado a lado, armados até os dentes, fingiam não ver ninguém. A luz atravessou o visor e Eduardo pode ver a terceira pálpebra limpando sua visão. Já não sentiu arrepios. Não sentia mais nada. Uma pessoa pediu sua documentação na entrada. Eduardo mostrou os papéis, a pessoa tomou nota e ele seguiu a fila. Foi despido e descontaminado. Depois avaliado por um médico apressado. Seguiu pelado a longa fila de caras apáticas ouvindo uma música agradável no seu ambiente. Um homem de roupas brancas e máscara cirúrgica sinalizava para que virassem a direita. Era uma escada rolante. Eduardo ouviu alguém chorando atrás de si, mas ele mesmo não sentia medo. Ainda sentia o gosto do cachorro-quente em sua boca. Viu quando a fila começou a desaparecer a sua frente e respirou fundo como se fosse dar um longo mergulho. Devia ter fechado os olhos. A última coisa que viu foi a gigantesca máquina dentada, girando e moendo o rapaz que havia estado a sua frente. Era o próximo da fila.

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