Dog Walking
On June 20, 2018 | 0 Comments

A Meg me puxa para fora do elevador, quase arrancando o meu braço, é incrível a força que uma cachorrinha fofa de 8KG tem no desespero de esvaziar as tripas. O porteiro grita que chegou boleto, eu peço para a cadela ir devagar e respondo que pego na volta. O portão abre, a Meg sai cheirando a primeira pessoa que vê pela frente, uma senhora que dá um pulo tão alto que pode se escrever na próxima olímpiada, a Meg me puxa para a esquerda, vira para a direita, me faz dar um rodopio e sobe a rua cheirando o matinho do lado de casa, correndo em seguida para o xixi pontual na porta do restaurante. O manobrista sacode a cabeça, eu dou de ombros sabendo que tem coisas pelo qual não se tem controle. Para um uber para descer uma moça apressada que passa pela gente para ir no manicure, uma fileira de carros param logo atrás dele, buzinando como se o combustível do carro fosse as ondas sonoras, a pessoa de trás corta pela esquerda e acelera com a mão na buzina, soltando um palavrão desnecessário. A Meg não percebe, já parou para tentar cheirar um lixo. Uma mocinha sai de uma lanchonete com as mãos estendidas para apertá-la como a coisa mais fofa do mundo e ela se impõe com latidos e rosnados fazendo a garota se encolher em um canto como se visse o diabo. Peço desculpas, avançamos mais três metros, um casal discute em um bar, com o cachorro emaranhado no meio das pernas, sigo pelo outro lado, feliz que a Meg não o percebeu, o cachorro mais atento avança contra ela, puxando a mesa consigo, derrubando copos de cerveja artesanal pela calçada. A minha vez de ouvir desculpas, balanço a mão e sorrio, triste pelo desperdício, lá se foram os primeiros vinte metros. Um carro freia com tudo para uma garota que atravessa na faixa, insatisfeita ela bate no capô chamando o motorista de filho da puta sem noção. Eu peço para a Meg se apressar ao atravessar a rua quando ela tenta parar para cheirar alguma coisa atropelada no asfalto. Seguimos em frente, buzinas e gritos, pessoas correndo e uma ansiedade justificada de se chegar em casa. O farol fecha e atravessamos para o outro lado, ainda subindo a rua. Um rapaz estala a língua enquanto reclama para o garçom que a cerveja está choca, a Meg anda cinco passos e se encurva para cagar, enquanto as pessoas me empurram para passar. Meu celular quase cai na merda. Terminado o trabalho, recolho as fazes e sigo em frente, com a cachorra um pouco mais calma. Pitstop na hamburgueria da moda para cheirar o lixo do lado de fora, um carro faz a curva errado e entra pela contra mão, provocando nova onda de gritos e risadas. Meg luta comigo para ir para um lado enquanto eu quero ir para o outro, na batalha eu sou forçado a usar a voz da autoridade, ou seja a suborno com petisco e a puxo para o lado que eu quero. Descemos pelo quarteirão paralelo, pisando na tinta fresca de uma calçada recém pintada e pedindo desculpas ao pintor que respira resignado. Uma bicicleta desce pela ciclovia, eu puxo a Meg antes dela começar a latir, ela me olha com cara culpada, mas fica calada. Não dou tanta sorte quando ela vê o morador de rua, ele se irrita e mostra os dentes para ela, fazemos a curva ao mesmo tempo que um carro que não dá seta, quase atropelando um ciclista. Ele desce da bicicleta para se equilibrar e xinga a motorista que finge não ouvir. Já consigo ver o meu prédio e sei que o trajeto chegou ao fim, deixo a Meg farejar curiosa uma casa de onde parece vir o latido de um cachorro e atravesso novamente a rua, já avistando o meu portão. Um grupo de rapazes me pede informação, enquanto eu explico a Meg rosna para tudo e para todos fazendo-os me olhar com reprovação, cinco segundos depois ela está sentada como uma dama enquanto uma vizinha coça a sua barba. Chegamos em casa, tiramos a coleira, ela come a sua ração e me olha entediada, como se nunca acontecesse nada.

Art: Dr. Pepper

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