

Passei os últimos anos apenas sobrevivendo (não vou desenvolver mais do que isso, tem textos o suficiente no meu blog para quem quiser entender meus motivos). No Grimdark a gente chama isso de terça-feira chuvosa, mas no mundo real o peso de ser um sobrevivente me distanciou quase que completamente da escrita. Até que um grupo de crianças resolveu atravessar o Império com uma carta em suas mãos.
Apesar do inferno e do silêncio, eu percebi uma mudança no fim do ano passado. Gastei semanas escrevendo um Tratado de Magia para Qaran, um texto absolutamente intragável para o leitor comum, feito só para referência, mas que se tornou uma obsessão. Desenvolvi a história da magia, sua teoria, funcionalidade, custos e pontos fracos. Um manual de mais de duzentas páginas sobre o que se sabe sobre a magia no Império. Um quebra-cabeças enfadonho para os “não-nerds”, mas essencial para minha construção de cenário. Quando terminei e enxerguei a imagem por inteiro e o joguei tudo na gaveta. Trabalho concluído.
Passei umas semanas sem escrever, coincidindo com a montanha de trabalho que sempre se avoluma no fim do ano e uma completa ausência de novas ideias. Até que terminei de assistir “Bem-Vindo a Derry” e lembrei de um antigo projeto que nunca saiu da sinopse: uma história sobre garotos de rua em uma cidade fantástica.
Histórias de amadurecimento sempre foram populares, mas estavam em alta por conta do sucesso de “Stranger Things”. A receita é batida: “Grupo de amigos abandonando a infância enquanto enfrentam uma ameaça sobrenatural”, mas me fazia pensar: Como seria “Conta Comigo” se ele se passasse no Império.
Imaginei uma tarefa simples: entregar uma carta em uma outra cidade. No caminho eles iriam descobrir como é o mundo longe das ruas que eles já conheciam. Por pura curiosidade comecei a fazer perguntas sobre os personagens: seu passado, sua personalidade, suas habilidades, a comida favorita, como se vestiam. Foram centenas de perguntas, sem intenção alguma além de construir personagens interessantes, assim como eu tinha feito com o Tratado de Magia, apenas um quebra-cabeças que eu ia montando. Foi com isso que terminei o ano. Um monte de ideias mais ou menos encaixadas em uma sequência de arquivos de referência. Joguei tudo na gaveta de novo.
Para 2026 meu sonho era o mesmo desde 2016: terminar a continuação do “Teatro da Ira”. Eu venho falhando nessa tarefa ano após ano. Em alguns eu apenas sobrevivi, em outros anos me ocupei com outros projetos. Em 2026 eu pretendia ficar focado nisso. Não pensava em outro projeto.
Mas o bando de órfãos que eu tinha acabado de criar eram interessantes demais.
Eu ainda queria saber como seria “Goonies” em um cenário em que os personagens poderiam realmente morrer, então escrevi 800 palavras e tive absoluta certeza de que aquilo não iria funcionar. Estava doce demais. Deletei tudo. No meu mundo, a infância não é protegida por redomas de vidro; ela é forjada no gume de uma faca. Desisti. Fui dormir sem culpa achando que o projeto seria somente mais um cadáver em meu cemitério.
Na manhã seguinte acordei com uma frase na cabeça:
“Pipo tinha três moedas de cobre no bolso e o sonho de reencontrar sua família.”
Levei a frase comigo para passear com as cachorras. Voltei para casa, dei ração e água para as patroas, tomei meus remédios e me sentei para o meu exercício diário de escrita. Era o quinto dia de janeiro quando Pipo apareceu com suas três moedas no bolso; ele não trazia o destino do mundo, trazia apenas a fome e a esperança; a combinação mais perigosa que existe. Resolvi que devia dar uma segunda chance para a história. Mil palavras, apenas para ver se iria funcionar.
Funcionou. As 15 palavras se tornaram 150. As 150 se viraram mil as mil se tornaram três mil. Isso foi a vinte e um dias. Hoje, enquanto escrevo essas palavras, a história já tem 47.215 palavras. Estou no início do terceiro ato, devo terminar na próxima semana.
Sessenta mil palavras em um mês, apenas porque eu queria saber como ficaria uma história de crianças em um mundo brutal de adultos. Sem pretensão. Apenas para passar o tempo.
A história está viva. Tem 47 mil palavras de suor, lama e a perda da inocência. Eu não vou jogá-la na gaveta. Dessa vez, eu vou deixar vocês verem os sobreviventes de perto.
Se você quer saber o que havia naquela carta, quem é o Pipo e como essas crianças vão sobreviver a um mundo que não acredita em heróis, assine a minha Newsletter. Vou compartilhar artes conceituais, trechos brutos e o progresso desse bando de órfãos antes de qualquer outro lugar. 2026 não tem promessas, mas agora, tem uma jornada.
| There are no products |