Mortos não digitam
On January 22, 2026 | 0 Comments
african american man typing on laptop keyboard
Photo by Andres Ayrton on Pexels.com

Ano passado eu morri. Morri uma vez e morri de novo. Morri ainda uma terceira vez. Eu já tinha morrido no ano retrasado. Vim numa sequência de mortes que já dura alguns anos, mas ano passado eu enterrei mais do que é normal enterrar em um ano.

Este ano estou lutando para renascer. Uma das coisas que eu precisava fazer para voltar a me encontrar era escrever. Minha psicóloga diz que eu não estava escrevendo por causa de tudo o que aconteceu; eu respondia que tudo aconteceu porque não estava escrevendo. Como se escrever pudesse impedir uma enchente, ou a morte do meu pai. Para que as coisas encontrassem seu lugar, era por aí que precisava começar.

Quando você é um escritor e passa por um evento traumático as pessoas esperam que você escreva sobre isso. Esperam algum momento de catarse, algum exorcismo de sentimentos. Eu escrevi sobre isso algumas vezes, mas nunca tive nenhuma catarse, nunca tive nenhum exorcismo. Eu escrevi, publiquei e continuei lutando. Quando eu não queria falar sobre isso, simplesmente não falava sobre nada. Ano passado eu escrevi pouco, no fim foi quase nada. Mortos sussurram, mas não digitam.

No fim do ano passado eu tive uma ideia idiota para uma história. Em um ano comum, eu teria passado por ela e esperado uma ideia melhor, mas aquele ano foi tudo, menos comum, então a namorei por uns dias. Experimentei uns personagens, construí um storyline. Em janeiro eu comecei a escrever. Não porque a história tivesse ficado boa, apenas porque eu queria escrever alguma coisa.

As primeiras mil palavras foram de jogar fora.

Ano passado eu morri e quando a gente morre, alguém espera que a gente pare para venerar o primeiro verme que roeu as frias carnes do nosso cadáver. Ao invés de eu contar a minha história do meu túmulo, eu estava correndo por ruas imaginárias, com um bando de crianças órfãs.

Não achei que seguiria adiante. No dia seguinte, joguei as mil palavras fora e escrevi outras mil e quinhentas. Das novas palavras eu gostei um pouco. Não eram geniais, não eram novidade, mas me arrastaram para um mundo novo, o que era mais do que eu tinha conseguido nos últimos meses. No terceiro dia escrevi três mil palavras. Assim, sem qualquer aviso, eu tinha escrito cinco mil palavras em três dias.

Existe uma energia redentora em organizar palavras no papel. Quando eu começo a escrever, as coisas ao meu redor parecem mais fáceis. Minha mente se organiza, minha vontade se direciona. O que era só caos, ganha sentido, enquanto eu vou digitando. O que era uma curiosidade se tornou 5 mil palavras, o que eram só palavras se tornou 100 páginas e parecia que aquilo nunca iria parar.

Um dia a escrita falhou. Não porque eu estivesse ocupado, não porque tivesse me faltado tempo. Falhou porque todo movimento tem suas oscilações. Eu escrevi ridículas 500 palavras. Uma vergonha. O suficiente para eu me sentir um lixo e empurrar o projeto de lado, como se ele tivesse fracassado. Eu já tinha mais de cem páginas escritas, tinha feito uma média de duas mil palavras por dia, mas tinha cometido o terrível crime de não bater minha meta um dia.

Quem decidiu a meta? Quem me culparia por ela? Qual foi a matemática envolvida? Não importava. Eu tinha falhado e aquilo era um crime. Cem páginas jogadas no lixo.

Uns dias antes eu tinha comemorado ter voltado a escrever. Alguns amigos queridos me mandaram mensagem perguntando sobre o projeto e me parabenizando pelo retorno. Eu fiquei feliz por não ter feito a ninguém nenhuma promessa. Desistir é difícil quando outras pessoas estão criando expectativas pelo seu trabalho. Só não é mais difícil do que começar. Sem aquela pressão, eu tinha me distraído por alguns dias, o que já era bom.

Eu moro sozinho em um apartamento confortável, com duas cachorras que me dão pouquíssimo trabalho. Estou trabalhando a maior parte do tempo, o que é, de certa forma, bastante triste, mas que ao menos me impede de dormir no sofá assistindo documentários sobre alienígenas do passado. Tirando ver televisão e trabalhar, eu passeio as cachorras, como e espero a visita da mãe para maratonarmos filmes de terror. Na semana seguinte, faço tudo de novo.

Parei de esperar mais da minha vida. Vou nos médicos, prometo fazer exercícios, gasto dinheiro demais com iFood e reclamo que preciso de férias, mas não faço nada quando tenho folga, apenas durmo. As vezes nem isso.

Eu tenho um amigo que sempre me disse que tem dificuldade de ficar sozinho. Pra mim nunca foi difícil, mas nos últimos tempos tenho me dado conta de que vai ser assim que vou passar o resto dos meus dias.

Acho justo que as pessoas me acusem de ser escapista. Não gosto do mundo, não gosto do que eu vejo, não percebo sentido nas coisas, exceto o sentido que dou a elas. Eu compreendo o mundo através da escrita e quando escrevo percebo o quanto é terrível tudo o que eu vejo. Quando não escrevo, me sinto cego.

No dia seguinte à Falha eu me dei conta que eu não tinha mais nada além de boletos para pagar e as cachorras que me obrigavam a me levantar para passear, pela manhã.

Durante esse passeio eu comecei a imaginar um grupo de garotos na estrada, cantando em voz alta, carregando espadas de madeira e me dei conta de que meu livro ainda não tinha acabado.

Oi, meu nome é Diego e estou escrevendo há 17 dias, até agora eu completei trinta e cinco mil palavras e ainda estou longe de acabar. Não sei se alguém vai ler essa história, esse não é o objetivo dela. Estou escrevendo por que escrever porque não escrever seria morrer de novo.

Leave a Reply

More news