Estradas
On June 13, 2022 | 0 Comments

 Eu nunca gostei de dirigir. Na minha adolescência, a maioria dos moleques queria ter um carro, ou pelo menos permissão para usar o carro do pai, mas por alguma razão isso não passava pela minha cabeça. Talvez porquê alguns dos meus amigos já tivessem carro ou moto e eu já andasse com eles para todos os lados, não sei, mas jamais compreendi a idolatria que havia ao redor do motor e suas quatro rodas, que fazia com que os amigos encerassem o carro aos sábados como se estivessem em um ritual religioso. Assim como meu pai.

Desde que me entendo por bípede, meu pai jamais ficou a pé. O carro para ele é como um órgão vital, que renova todo ano e que o mantém em movimento. Não é algo que ele goste de emprestar, por motivo algum. Tão pessoal quanto uma escova de dentes.

Meu pai sempre gostou de viajar de carro. Três filhos no banco de trás, todas as estradas do sudeste na memória e uma fita de música caipira ou Raul Seixas no rádio, estamos sempre entre um estado e outro, de Minas Gerais ao Espírito Santo. De São Paulo ao Rio de Janeiro. Navegando entre colinas e campos salpicados de cabeça de gado e serras cobertas de mata, onde parávamos para beber água da fonte. Meu pai adora a estrada e mesmo hoje é difícil prendê-lo em casa se ele puder dirigir para outro lugar.

Quando fiz dezoito anos, por pressão dele tirei minha carta de motorista e, tão logo fui habilitado, ele foi até uma loja de usados e retirou para mim um carrinho, que comecei a pagar com o salário de office boy. Não era o destino que eu queria dar para o meu dinheiro, mas aquilo agradava o meu pai, então continuei pagando, sem dinheiro sequer para a gasolina.

Nos fins de semana, os amigos investiam um dinheiro e dirigíamos sem destino certo, ouvindo música e dando risada, enquanto desafiávamos as leis do espaço/tempo. Não precisávamos de muito, era o suficiente estarmos juntos e eu topava fazer aquele sacrifício, embora passasse a noite toda com o coração acelerado.

Meu pai adora a estrada e mesmo hoje é difícil prendê-lo em casa se ele puder dirigir para outro lugar.

Além de não gostar de dirigir eu era péssimo motorista, com uma noção ruim de espaço e uma pior ainda de segurança, mas descobri que gostava muito de correr. Eu tinha dezoito anos, um carro, nada na cabeça e curtia a adrenalina de fazer algo proibido, o que logo me envolveu em alguns momentos perigosos que matariam minha mãe do coração se resolvesse escrever sobre eles, o que por motivos de minha segurança, não vou fazer.

Eu podia ser jovem e inconsequente, mas não era estúpido e não demorei muito para entender que aquilo acabaria mal em algum momento. Então, quando quase fundi o motor do carro uma noite, meu pai achou melhor vendê-lo enquanto ainda valia algo e guardar o dinheiro para comprar outro no futuro, o que nunca aconteceu.

Ao invés disso, usamos o dinheiro do carro para comprarmos um computador e nos fins de semana, muito a contragosto, meu pai me emprestava o carro dele, mas com tamanha má vontade que logo desisti de pedir. Era mais fácil sair com o carro dos outros amigos, que estavam sempre ansiosos para dirigir. Confesso que me senti aliviado, mesmo sendo duro esperar pelo ônibus durante a semana.

Só fui voltar a dirigir com uma namorada que tinha carro. Viajávamos aos fins de semana e vez por outra ela me pedia para assumir o volante. Continuava detestando, mas parecia justo não deixá-la sozinha com o fardo, então engolia toda a ansiedade, toda tensão, e fazia o meu melhor para fingir estar tudo bem, embora, no fundo, ficasse feliz quando ela dizia adorar dirigir e que eu não me importava com aquilo.

Passei a vida toda sem carro, um feliz usuário do transporte público e early adopter dos carros de aplicativo e só me dou conta do quanto isso parece estranho, quando alguém me faz algum convite que só poderia aceitar de carro, mas eu sei que isso só é possível por ter sido privilegiado; trabalhar de casa, morar no centro; ter tudo por perto.

Para viajar me organizo para alugar um veículo, pegar as malas, entregar as cachorras, buscar a namorada e cair na estrada, tenso como um soldado indo para a guerra e com igual coragem. Quando o motor desliga, sinto os músculos estalando enquanto tentam voltar a normalidade.

Foi nesse espírito que neste fim de semana embarquei a missão de chegar em Guararema. Uma viagem curta, que eu já fizera intercalando metrô, trem, ônibus e carona, com mala nas costas, mas que eu queria fazer sem tanto sacrifício.

Reclamei um pouco da burocracia e fiz vistas grossas para a grana que iria gastar. Coloquei a mala no banco de trás, ajustei o banco e os retrovisores, dei a partida e xinguei a voz do waze enquanto ela tentava me confundir através das dimensões paralelas da cidade de São Paulo. Peguei minha namorada, nos perdermos pela zona leste, comemoramos ao encontrar a estrada e logo tudo o que restava era colocar a fofoca em dia, enquanto procurávamos a saída correta.

Em Guararema não tínhamos sinal de celular e nos perdemos algumas vezes, mas tínhamos tempo e gasolina então encontramos o caminho através da tentativa e erro, como faziam os antigos exploradores fenícios. Sem sustos, sem ansiedade, sem acidentes.

No dia seguinte, eu já estava com pena de devolver o carro e pensava seriamente em ter quatro rodas para chamar de minhas, embora eu realmente não precisasse delas, exceto para curtir um pouco mais a vida.

Antes de me despedir do carro, dei uma carona para minha mãe até em casa e lá chegando, fiquei decepcionado em não encontrar meu pai para comentar sobre como foi a viagem. Tentei ligar, mas como de costume ele não me atendeu e esperei o quanto pude, arriscando pagar multa pelo atraso, mas ele não apareceu. Desisti, por fim, e peguei a estrada, levemente melancólico, como se tivesse perdido algo importante que jamais teria de volta. Apenas outra estrada errada daquela vida.


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