A História Ordinária
On February 19, 2026 | 0 Comments

Porque escrevo sobre os esquecidos e não sobre os cavaleiros de armadura

A História Ordinária |
Vergonhosamente Ilustrado por IA

Eu nunca tive muito interesse pelos cavaleiros de armadura brilhante. Heróis das lendas sempre me pareceram estátuas de gesso: impecáveis, imóveis e frágeis. Sempre vi essas histórias como uma peça de marketing escrita pelos vitoriosos, como se estivessem posando para uma pintura. Mesmo os grandes heróis de origem humilde costumavam me deixar com uma pontada de desconfiança.

A dez anos, eu escolhi olhar para o outro lado. Enquanto a fantasia clássica sempre foi “a história oficial”, eu escolhi escrever os “arquivos proibidos” e procurei sempre dar voz aos que são esquecidos nas grandes canções. Ignorando o ouro dos grandes tesouros reais e me empenhando em ouvir a voz do escravo, a solidão do órfão, o silêncio do camponês que perde sua colheita, aqueles que são esquecidos pelos cronistas.

Minhas histórias nunca foram sobre salvar o mundo, mas sim sobre sobreviver a ele.

Desde “O Teatro da Ira”, minha primeira publicação oficial, até meu novo romance, a minha bússola sempre apontou para o que é ordinário. Porque, no fim das contas, a verdadeira coragem não está em enfrentar um lorde das trevas com espadas mágicas, está em decidir de onde virá o próximo prato de comida, quando o mundo ao seu redor decidiu que você não importa.

O Teatro da Ira” é a história de um mercenário e um escravo, em uma jornada de vingança contra a nobreza, a trama política do mundo lhes escapa completamente. O jogo de aristocratas e reis acontece independente dos seus desejos e embora tudo o que eles façam cause consequências graves na história, eles jamais são mencionados na História com “H” maiúsculo. Eles são insignificantes e a insignificância é o que os mantém fiéis aos seus desejos.

As decisões dos personagens são tomadas com bastante egoísmo. Ninguém está preocupado com o bem da nação, ou do Império. A felicidade do povo é uma piada, mesmo para o próprio povo. A decisão sobre a vida e a morte de milhares de pessoas é tomada por impulso, em um gesto de orgulho ou raiva, mostrando como a morte do outro pode se tornar aceitável.

Já na “Lenda do Mastim Demônio”, a história gira inteiramente ao redor da vida de um órfão, desprovido até das suas necessidades mais básicas. Literalmente tratado como um cão, incapaz de se comunicar com outros seres humanos, ele encontra a amizade de um proscrito, que se apieda da sua situação e o liberta da sua condição.

Toda a violência e injustiça aqui é praticada sob o teto monastério do deus dos justos, mostrando que até mesmo os deuses, quando resolvem se importar, têm lado e que todo aquele que tem poder acaba sendo corrompido por ele, apenas disfarçando as suas ações, às vezes, com palavras bonitas e histórias heroicas.

Sempre gostei dos personagens mundanos. Todos sabem o que os heróis vão fazer quando estão prontos a enfrentar o grande mal, mas eu gosto de me perguntar sobre as decisões do fazendeiro, as escolhas do oleiro, o que vão fazer os destituídos, quando a mudança de poder não parece lhe favorecer em nada. A escolha é sempre entre o mais correto e o mais fácil e o mais fácil geralmente vence.

Acho que foi em “O Gigante da Guerra” que essa predileção pelos anônimos ficou mais evidente. Nessa história duas crianças são deixadas para tomar conta da fazenda, quando seu pai vai lutar em nome do Imperador. A história se passa toda numa aldeia no meio do nada, cujo nome não importa, onde o maior inimigo é a fome e o medo. A única coragem que existe aqui é a necessária para não sucumbir à crueldade e no fim são todos covardes.

Não existem grandes lutas de espada, nem grandes senhores da escuridão na história. Existem apenas as necessidades de duas crianças em um mundo que exige demais daqueles que tem pouco a oferecer. Pessoas comuns em situações incomuns. Tentando sobreviver ao próximo dia, tomando decisões questionáveis, acreditando que não têm escolha.

Eu sempre parti do princípio de que ninguém é vilão de sua própria história. Somos sempre incompreendidos, injustiçados, altruístas, heroicos. Apagamos as nossas sombras ao redor da fogueira, quando vamos contar ao mundo nossas crônicas. Até nossas falhas se tornam bonitas e humanas quando colocadas sob o contexto correto e nós sempre escolhemos o melhor contexto para trazê-las à luz do dia.

Aquilo Que Nós Matamos” fala sobre essas sombras que carregamos antes mesmo do nosso nascimento. Todos os erros e crimes que nos fizeram ser quem somos e sobre como até os monstros possuem seu lado da história. É um conto de fadas as avessas, onde desejos custam caro e trazem consigo o perigo da realidade. A personagem principal deste livro é uma garota que acaba de completar seus dezesseis anos. Negra. Filha de um lenhador. Em um mundo governado pelas aparências e pelos laços sanguíneos. No dia dos seus votos ela se nega a comprometer-se com os deuses e escolhe a própria liberdade, mas custa caro ser livre no mundo real e as aventuras dos livros não mostram os cadáveres inocentes esquecidos pelo caminho.

Nos contos eu trouxe de volta a guerra e os órfãos com “A casa é a fome do mundo”, onde dois órfãos encontram uma casa com cheiro de doce, no meio da floresta. Uma história sobre traumas e cicatrizes. Em “A Sombra da Colina do Rei” a burocracia tenta tomar contra do absurdo. O mundo é um lugar perigoso que pune o heroísmo com rigor, sendo capaz de corromper até o mais santo dos santos.

Todas essas histórias têm em comum a origem mundana dos seus protagonistas. Nenhum príncipe, nenhum herói predestinado, nenhum deus oculto. Gente comum que precisa lidar com um mundo vasto e assustador que deseja mastigá-los e cuspi-los na menor oportunidade e contra o que a força e a espada não dizem nada.

Uma vez eu comentei que detestava a figura do Herói Prometido e do Príncipe Oculto. Gostava mais de Harry Potter quando ele era só o cara errado no lugar errado e nem era o melhor dos magos. Passolargo é mais interessante do que Aragorn e eu não tenho o menor interesse em conhecer um semi-deus, a não ser que ele esteja presente com o pior das qualidades que existe entre deuses e homens. Fui questionando, então, sobre o que eu gostava e eu me lembrei do Alfaiate Valente, enfrentando príncipes e gigantes, com esperteza e uma agulha.

Me lembrei dos soldados de baixa hierarquia de Bernard Cornwell gente que não tem poder para decidir o destino do reino, mas tem que decidir de onde vêm o próximo prato de comida. São esses personagens que me atraem. Os sujos, destituídos, a gente simples que vive longe dos salões reais, dormindo na beira da estrada, contando as moedas de cobre. Entre os nobres eu fico com a figura de Elric, o príncipe amaldiçoado cujo poder consome tudo à sua volta, mesmo quando suas intenções são boas e quase nunca são.

Foi esse mesmo espírito que eu trouxe para o meu novo romance; desta vez um grupo de órfãos, vagabundos e destituídos, sobrevivendo em uma cidade imensa, que os despreza e explora à cada passo, lutando para manter aquilo que eles tiveram de mais próximo de uma família, quando são tentados pelo idealismo do seu líder que ainda acredita nos grandes heróis e em cavaleiros de armadura que lutam pela justiça e o bem do povo. Apenas crianças, tomando uma decisão ruim após a outra, enquanto tentam descobrir o que é certo. Aqui o heroísmo é o antagonista involuntário contra o qual eles precisam sobreviver.

Meu novo livro é sobre esses órfãos roendo as sobras das grandes histórias, enquanto procuram um lugar aquecido para dormir, cujo grande heroísmo é se manter juntos, custe o que custar. É uma história sobre o fim dos sonhos e o início da realidade. Sobre como a crueldade nos faz crescer antes do tempo.

Ainda não tenho data para o lançamento desta história, mas ela já criou suas raízes. O cenário se tornou um personagem em si. Vivo, sujo, sangrento e se debatendo como um cão coberto de pulgas. O tipo de lugar onde os heróis não duram muito tempo. Alguns dos personagens devem aparecer em contos curtos na minha newsletter e indiretamente em alguns dos livros futuros, então se você ficou curioso.

Se você cansou do brilho falso das armaduras e prefere o peso real das moedas de cobre, junte-se aos nossos. Assine a Gazeta Ordinária e receba os relatos de quem a História preferiu esquecer.

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