

Encontro-me naquela penumbra criativa que se sucede ao parto de uma obra. O primeiro livro de 2026 está entregue e, enquanto a próxima grande ideia não engrena, decidi me dedicar aos detalhes que chamamos de “perfumaria” do mundo: a antropometria e a metrologia fantástica. Coisas que o leitor comum ignora, mas que confere verossimilhança ao worldbuilding. Como estou de férias e com tempo livre, mergulhei fundo na lógica de como medir o meu mundo fantástico.
Foi com afinco que me dediquei a medida do ano, meses, dias, horas, e com certa facilidade que naveguei pelos pesos, volumes e distâncias, mas confesso que eu travei quando cheguei na hora de tratar sobre os comprimentos, provavelmente a medida que a gente mais usa no nosso dia a dia.
Para os comprimentos, eu buscava uma unidade orgânica, algo que evocasse a era pré-industrial sem cair no clichê da polegada. Como nada me vinha a mente naquele momento, recorri a inteligência artificial em busca de referências etimológicas. Surgiram o grão, a unha, a falange e o palmo. Tudo fluía com precisão acadêmica, até que, entre a unha (1,25cm) e o palmo (20cm), eu senti que faltava uma medida intermediária. Pedindo para a IA criar tal medida, ela me sugeriu o Pau.
Segundo a máquina, o “Pau” seria a medida oficial do dedo médio: exatos 10 centímetros.
Faço uma pausa aqui. Eu sei que você, leitor instruído e curioso, está cogitando buscar uma régua agora mesmo para aferir sua própria anatomia. Vá em frente. Eu espero. Pronto? Retomemos.
Apesar de levar meu trabalho com uma seriedade quase monástica, sou dotado de um senso de humor resiliente. Para validar a medida, precisei testá-la em uma situação de cena prática. Então imaginei uma simples visita ao mercado central da cidade:
– Quanto custa um Pau de fumo? – Perguntou o freguês, encarando a barraca com um suspiro.
– Uma moeda de cobre – O mercador respondeu, medindo a corda com o canto da mão e fazendo um risquinho com a faca. – E de dou mais uma unha de cortesia.
– Espera, mas esse Pau é muito pequeno! – Reclamou o sujeito, usando a própria mão como parâmetro. – Você não tem uma régua oficial?
Todo mercado tinha uma régua fixada para a conferência em caso de disputa, mas os vendedores carregavam cópias feitas a mão para agilizar o processo e não ter que ir até o centro do mercado. Era essa régua que os fiscais da coroa conferiam quando inspecionavam uma barraca.
O mercador respirou fundo, com o enfado de quem lida com fiscais da coroa o tempo todo, e sacou um bastão de madeira maciça cheia de riscos de trás do balcão:
– O mercado trabalha com o Pau Imperial. – explicou, ríspido.
O freguês aferiu a mercadoria no bastão e bufou, ela batia:
– É o que eu imaginei. O Pau do Imperador é minúsculo. Vou comprar no seu vizinho; o pau dele é bem maior.
– Ora e o que você quer dizer com isso? – O mercador empunhou a régua como um porrete. – Meu pau é padrão! E ainda te ofereci uma Unha de brinde!
– Um pau e uma Isca, e fechamos negócio.
– Se levar dois paus, eu te dou a Isca.
– Dois Paus? Acho que é justo. Mas continua sendo um Pau pequeno.
Funcionava taticamente. O sistema de medidas não era apenas lógico; era um motor de conflitos diplomáticos e ofensas veladas. Decidi, por puro rigor científico (e uma pitada de sadismo), a elevar a medida oficial para 12cm e lançar a questão ao tribunal das redes sociais: “Estou criando um sistema de medidas para um universo fantástico e cheguei ao Pau (12cm). Vocês acham que o Pau está muito pequeno?”
O engajamento foi imediato. O público alvo – gente que entende de RPG e Sarcasmo – logo concluiu que, para um pau comum, era pouco, mas para um Pau Imperial, era o suficiente para manter a ordem. A piada era um ecossistema perfeito.
Até que surgiu o “Fiscal do Pudor”
A internet é uma terra sem lei e a gente nunca sabe com quem tipo de gente nós vamos acabar interagindo quando começamos um assunto novo. Às vezes damos sorte, outras vezes apenas criamos confusão. Um rapaz, investido em uma aura de conservadorismo digital, decidiu que meu post era um grito de carência:
– Desnecessário! Você está carente? Que sem noção! – Bradou ele nos comentários. Com a empáfia de quem tem a razão ao seu lado.
– Qual o problema? Não gostou do Pau? – Respondi, mantendo o personagem. Crente que conseguiria transformar a conversa em uma nova piada.
– Você não precisa se expor assim. Acha que alguma mulher vai falar com você porque você postou o tamanho do seu pau?
– Amigo, você está confundindo as coisas. Esta é uma medida fictícia, para um universo de fantasia grimdark. – Respondi horrorizado, fazendo uma matemática mental para saber qual seria o tamanho do meu pau no Império.
– Ah tá! Agora quer disfarçar? Não engana ninguém! – Ele debochou, certo de que eu me entregaria diante da sua sagacidade.
Para o azar dele eu fui criado em escola pública, em um tempo em que a palavra bullying ainda não existia. Respostas rápidas eram uma questão de sobrevivência e eu não esperei outra oportunidade:
– Veja bem… o que você estava procurando na internet para acabar caindo em um post sobre “tamanho de pau” assim sem nenhum aviso?
Nada contra o que cada pessoa busca na Internet. Sou a favor de que sendo consensual, todas as pessoas busquem pela felicidade onde quer que ela esteja, mas parece que toquei em uma ferida. O diálogo descarrilhou para o surreal. Ele me acusou de ridículo, sugeriu que eu “apagasse enquanto dava tempo” e até me ameaçou com processos judiciais, enquanto eu tentava explicar a diferença entre a métrica literária e a minha genitália. Ele não aceitava que o Pau era apenas uma ferramenta da escrita. Talvez não fosse algo simples de entender.
No fim, acabei bloqueado e ele sumiu antes que eu pudesse imortalizar o print daquela conversa estranha. Foi-se a primeira vítima da minha métrica imperial e eu fiquei ali, rindo sozinho, com o Pau na mão – devidamente aferido em 12 centímetros, como manda a lei do Império.
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