Retrospectiva
On December 29, 2025 | 0 Comments
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A pior coisa que pode acontecer com um escritor é não escrever. Você pode lidar com textos ruins, pode lidar com críticas pesadas, pode lidar com ideias incompletas, mas não existe nada que frustra mais um escritor do que o silêncio mental. Para mim esses longos silêncios costumam surgir quando eu começo a me questionar o que os outros vão pensar sobre o texto. Quando começo a me preocupar com como as pessoas vão receber o que eu digo, eu começo a escolher demais as palavras e o bloqueio vêm na sequência.

Não tenho escrito muito nos últimos tempos. Tenho enfrentado esse bloqueio a vários meses e talvez ele tenha começado justamente quando eu tinha mais coisas a dizer. A verdade é que os últimos anos não foram nada bons comigo. Eu enfrentei várias batalhas bastante difíceis e elas geraram a expectativa sobre como eu deveria falar sobre elas. Como falar sobre câncer, sobre internação, sobre perda, sobre luto. Eu fiz o meu melhor sobre tudo isso, mas o melhor nunca foi o suficiente e isso pareceu bloquear o caminho das palavras. Eu queria escrever sobre os dias no hospital psiquiátrico, mas eu sentia como se isso precisasse ter a gravidade que o evento merece. Não podia ser um simples texto, precisava ser o texto mais importante do meu mundo, como foi o evento para mim. Como eu não conseguia escrever esse texto perfeito, não escrevi nenhum e hoje tudo se perdeu na névoa dos remédios e sessões de terapia. Você precisa malhar o ferro enquanto ele está quente. Eu deixei o assunto esfriar. Um pouco por incapacidade, muito pela autocensura e mais ainda porque a vida não parou depois disso e eu levei outra marretada assim que levantei a cabeça.

É difícil falar sobre tudo isso, preciso me perdoar por não ter conseguido. Tem uma mistura de medo e vergonha. Como se fosse minha culpa ter ficado doente. Existe sempre uma voz perguntando o que os outros vão pensar quando souberem disso ou daquilo e por isso eu me fechei justamente quando eu precisava me abrir mais.

Ainda não sei o que veio primeiro. Tudo começou com falta de ar e perda de peso. Foi quando passei a frequentar mais médicos do que academia. Eu não conseguia andar uma quadra sem ficar cansado e estava na cara que aquilo não era normal, mas enquanto eu investigava o que podia ser, meu corpo reagiu e começou a inchar, eu não parava de engordar. Meus olhos ficaram inchados, eu sentia como se meus olhos fossem saltar das órbitas. Ninguém sabia me dizer o que era aquilo, os exames pareciam não chegar a lugar algum. Os médicos só insistiam que eu precisava fazer exercícios e dieta. Eu tentei. Cheguei a desmaiar de fome. Nada resolveu. Clínico Geral, Endocrinologista, Alergologista, Cardiologista, todos falharam no básico. Até que eu fui parar no pronto socorro com a pressão 18/6 a beira de um derrame.

Como eu disse, não sei o que veio primeiro, sou só um homem doente. Junto com os sintomas vieram as crises de ansiedade. Com as crises de ansiedade veio o surto psicótico. Com o surto psicótico veio a descoberta do tumor. Eu teria descoberto o tumor sem o surto? Foi ele quem causou meus problemas de saúde? Ninguém sabe. Ninguém sabe de nada. Eu só fui lidando com um problema depois do outro. Contando assim parece que foi rápido, mas as coisas se arrastaram por meses e médicos. Incontáveis médicos. Cada um com uma teoria e um conselho: procurar outro médico.

Passei um mês em radioterapia. Todos os dias uma sessão. As pessoas me tratavam bem naquele hospital. Eu sentia que estavam me ouvindo pela primeira vez. Quando as sessões terminaram eu me sentia muito melhor. Não estava tão inchado, já tinha recuperado meu fôlego. Precisaria esperar seis meses para refazer os exames, mas eu sentia no corpo que já tinha dado certo. Acho que foi esse entusiasmo que me fez subir na escada para olhar uma calha entupida. A escada virou. Eu caí no quintal e quebrei o braço.

Voltei para o hospital com a experiência de um veterano. De um médico para outro, de um hospital para outro, de um dia para outro, até que me deram uma tala e me mandaram voltar na semana seguinte. Nunca tive esse tempo. Na minha cabeça eu tentava entender os sinais. Obviamente Deus queria falar comigo, mas eu não conseguia entender o motivo, então talvez ele estivesse pensando em me convocar pessoalmente para a conversa. Achei que não tinha jeito daquilo piorar, depois de tudo o que eu tinha passado.

Se existe um Deus, e as vezes eu tenho dúvidas sobre isso, ele não gosta de ser desafiado. Dias depois de ter quebrado o braço, enquanto eu refazia os curativos da minha mão que havia se cortado na queda, aconteceu a maior tempestade dos últimos tempos na cidade de São Paulo. Foi a primeira vez que o sistema de alerta de tempestades funcionou. Eu tirei um print do aviso na tela do celular, achando curioso. Eu ainda olhava para o print, quando a porta da minha casa arrebentou e uma onda de lama invadiu a sala. Não durou muito. Quinze, vinte minutos. A água chegou no meu peito. Destruiu tudo, mas foi gentil para me deixar vivo e com as minhas cachorrinhas.

É difícil escrever tudo isso. E tem sido difícil escrever sem falar de tudo isso. Colocando em sequência assim, nem parece verdade. Parece o roteiro de uma novela ruim que coloca o ator em uma situação difícil toda semana. Eu já não sabia mais como contar para os outros que mais uma coisa horrível tinha acontecido. Chegou em um ponto que uma invasão alienígena não me abalaria. O próprio capeta surgindo no meio da sala não me abalaria. Eu só queria que acabasse logo, mas esse inferno não tinha previsão de acabar então segui em frente. Certo que não tinha como piorar…

Eu me senti culpado quando perdi meu pai. Depois da enchente, fiquei umas semanas na casa dele e assisti o que restava da sua sanidade escapando todos os dias. Quando finalmente me mudei, achei que eu podia estar protegendo-o do meu azar, mas não é assim que as coisas funcionam. Eu tinha dito que não tinha como piorar. Eu achava que não podia piorar.

Meu pai acabou internado e faleceu no hospital. No dia, quem estava com ele foi a minha irmã. Foi ela quem assistiu enquanto ele lutava com a falta de ar, até o momento em que simplesmente parou de tentar. No laudo médico só dizia que seu falecimento se deu por causas diversas. No seu funeral vieram seus amigos mais antigos, alguns funcionários que se lembravam dele, parentes.

Minha psicóloga diz que é estranho que depois de tudo o que eu passei, continue fazendo as coisas da mesma forma, mas não sei se isso é verdade. Na maior parte do tempo eu já desisti. Estou aqui só pela comida.

Pode parecer estranho, talvez pareça forçado, mas eu sei que tenho muita coisa para agradecer também. Eu tenho amigos incríveis que me ajudaram em todos os passos difíceis que eu dei e lamento que tantos acontecimentos ruins tenham testado algumas amizades ao ponto da ruptura, mas eu entendo os motivos de quem se afastou. Eu não tenho sido boa companhia, nem nos meus melhores dias. Fico agradecido por terem tentado.

Apesar de tudo, estou vivo e depois de tudo o que aconteceu, isso não é pouca coisa. Não quero reclamar. Estou cansado de reclamar. Eu só queria escrever. É o que estou fazendo agora. Tudo parece melhor, quando eu escrevo. Mesmo que não faça muito sentido.

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