O Otário
On June 7, 2021 | 0 Comments

Nelson Rodrigues dizia que todo dia o malandro sai de casa e todo dia o otário também. O problema acontece quando eles se encontram. Na verdade não sei se foi Nelson Rodrigues quem disse isso, mas sendo ele um dos grandes pensadores da malandragem, existe uma boa probabilidade de eu estar com a razão.

Já sobre otários e malandros, não tenho dúvidas de que na vida, quando saio de casa, eu sou o otário. A maioria das pessoas não teria orgulho de dizer isso em voz alta e eu confesso que me sinto um pouco constrangido em assumir, mas a verdade é que em qualquer negociação financeira eu termino com a sensação de que acabei de ser enganado, o que não é verdade em 99% dos casos e me deixa cabreiro naquele 1% que resta.

Ao longo da vida tenho tentado mecanismos para escapar de ser o otário da história, mas não é sempre que fazer cara de mau, resmungar baixo e ameaçar buscar a pessoa no quinto dos infernos resolve. O malandro, o malandro mesmo, deve achar até graça desse meu jeito troncho de tentar manter as negociatas fechadas. Existem, porém, três regras, que me ajudam a sobreviver neste mundo de espertos.

A primeira regra é saber que se um negócio parece ser muito bom para ser verdade, é porquê não é verdade mesmo. Sim, eu sei que estou generalizando, mas é o tipo de regra que se você abre uma exceção, tudo pode se enquadrar dentro dela, então mantenha-se firme.

A segunda regra é nunca tomar uma decisão na frente do malandro, por mais insistente que ele seja. Boa parte do esquema envolve sempre um prazo final e urgente, uma última chance, a última peça, um outro interessado, algo que te apresse a resolver sem muita atenção, para não perder o negócio, dois segundos antes do malandro jogar a bomba de fumaça no chão e desaparecer te deixando com a placa de otário na mão.

A terceira e última regra é lembrar que a culpa não é minha e não tenho motivo para me envergonhar do que aconteceu. Posso sentir raiva, arrependimento e frustração, nunca vergonha. Saio da história mais pobre, porém mais sábio, ou assim prefiro acreditar até cair no próximo golpe.

Com tudo isso em mente, achei que estava tudo bem quando o caminhão de plantas parou no portão de casa e o rapaz tirou um grande vaso da caçamba. Era exatamente do tamanho que eu queria para colocar minha amoreira e ele me garantiu que tinha sido uma boa escolha.

Jean, o dono do negócio, entendia muito de jardinagem e se ofereceu para transplantar a árvore e dar uma limpada de graça no meu jardim se eu comprasse o adubo com ele.

Falava rápido, intercalando elogios ao pé de jabuticaba carregado com conselhos sobre como cuidar do limoeiro e a revelação de que o cacto estranho que crescia sem atenção no fundo do quintal era na verdade um pé de pitaia.

– O litro do adubo é só R$18,00. Estamos atrasados para cuidar do quintal da Dona Maria! Carlos, espalha mais adubo ali… isso, pega mais lá no caminhão. Olha ali aquele vaso, dá pra aproveitar. Adubo nele. Vai ficar bonito. Tá aqui meu telefone se tiver alguma dúvida, não tem problema, aceito pix! Carlos, passa o pix pra ele fazer o pagamento. Minha calculadora quebrou, faz as contas ai, é R$18,00 o litro, né? Conta comigo… 5, 10, 20…

O caminhão acelerou mais rápido do que um foguete da Space-X. Em uma última acelerada, fazendo o escapamento pipocar, ouvi Jean e Carlos gargalhando enquanto cifrões virtuais do meu dinheiro transbordavam pela janela do caminhão. Antes dele virar a esquina eu já estava chorando para o meu extrato bancário vazio. Não era pouca grana. Praticamente tudo o que tinha me sobrado. Dinheiro que estava guardado para o caso de uma dor de barriga e ela doía, em ondas, gritando: Otário!

Passei dias furioso, e confesso que ainda não me acalmei. Como tinha me deixado levar por um esquema desses? A culpa era toda minha! O desgraçado não tinha sequer se dado ao trabalho de mentir, havia me rapinado usando apenas a verdade. Ou pelo menos parte dela. Não bastasse levar todo o meu dinheiro, também havia jogado na caçamba do seu caminhão tudo o que restava da minha dignidade e amor próprio.

Quando finalmente me perdoei e passei a odiar Jean por ter sido o malandro que saiu de casa, meus pensamentos mais sombrios, me levavam a imaginar seu corpo em posição fetal apodrecendo sob a camada de adubo que forrava meu jardim. É a forma como um escritor se vinga de algo. Hoje, enquanto regava as plantas, reparei que a jabuticabeira estava absolutamente carregada de frutos negros. Aparentemente o adubo deu certo.


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