O que as panelas confessam
On March 15, 2021 | 0 Comments

Uma vez me disseram que cozinhar era uma forma de amor. O que as panelas confessam ao pé do fogão, enquanto uma sopa grossa era mexida, me pareceu o tipo de declaração covarde naquele instante, mas eu aceitei. A gente aceita até as menores migalhas da mesa, quando está apaixonado. Não demorou muito para que a fome voltasse a minha casa e eu passasse a me lembrar desta história com o cinismo característico dos que se julgam descartados.

Mas deve ser verdade. Cozinhar deve mesmo ser uma forma de amor. Isso explica a obsessão dos pais e avós pela alimentação da prole, pelos quilos (sempre a menos), pelo que guardam na própria geladeira. Isso explica a aflição que uma mãe tem quando seu filho recusa a mamadeira, empurra para o canto do prato as verduras, recusa o frango e diz que só vai comer arroz e batata frita.

Isso certamente justificaria a reação dos Mineiros quando alguém não come na sua casa. Ou a maneira egoísta com que as crianças escondem seus lanches na escola. Reunir os amigos para um almoço, se encontrar aos domingos para um churrasco, guardar para o vizinho um pedaço de bolo. Levar ao porteiro um pedaço de torta. Entregar ao morador de rua um pratinho de comida. Oferecer ao carteiro um suco para aliviar o sol quente. Fazer sopa para quem está doente. O prato favorito para quem vem de longe.

“Existe algo desanimador em cozinhar para si mesmo”

Esse pensamento me ocorreu enquanto a cebola e o alho douravam no fogo. Eu estava um pouco atrapalhado com a ordem dos cozimentos, pensando demais no que antes acontecia naturalmente. Fazia um tempo que eu não cozinhava. Os dias andavam corridos a quarentena consumia meu ânimo na mesma medida em que o iFood consumia meu dinheiro. Existe algo desanimador em cozinhar para si mesmo e o isolamento social tinha arrancado de mim aquele pequeno prazer. Minhas refeições eram quase sempre rápidas, altamente calóricas, confortadoras e raramente matavam minha fome. Mesmo que a balança continuasse a confirmar o que o espelho sempre dizia.

No início da quarentena, quando tudo parecia ter ido para o inferno pela primeira vez e ainda não estávamos acostumados com isso, um amigo me mandou uma surpresa. O uber parou diante de casa e eu desci para pegar uma sacola plástica com potinhos de vários tamanhos, onde ele tinha separado o meu almoço. Meu amigo, que cozinha muito bem, havia se lembrado de mim enquanto fazia o almoço. Comi chorando, porquê estava uma delícia, mas também porquê entendi o recado.

Juntei a linguiça picada em quadradinhos junto ao alho e a cebola e vi minhas cachorras lamberem os beiços comportadas e ansiosas ao pé da pia. As últimas semanas tinham sido difíceis. Se antes eu culpava a correria dos trabalhos por não cozinhar, agora eu encontrava como desculpa a dispensa vazia, a compra que não tinha chegado, o mercado que tinha algo em falta, o sacrifício que era me levantar da cama. Qualquer desculpa serviria, desde que eu ficasse longe da cozinha.

Todo mundo na minha turma tem um prato, o meu é o chilli, um prato é simples que qualquer um pode fazer, mas que os amigos por uma questão de princípios declararam como meu e tornou-se a minha especialidade. Quando sentem vontade de comer chilli, é a minha vez de mostrar o quanto eu os amo.

Lembrei das receitas mirabolantes que eu fazia meses atrás e de me divertir com perfis de gastronomia. Ou dos amigos que se juntavam em um sábado para atualizar as coisas da vida enquanto os homens cuidavam do fogão. Uma tradição dos quais todos se orgulhavam. Estava tudo na ponta dos dedos agora. Um vasculhar de perfis, uma passada para o lado, uma breve descrição, pagamento e entrega. Servia tanto para o iFood quanto para o Tinder.

Juntei com a calabresa dourada o patinho cortado em tirinhas e mexi bem para selar a carne. Sal e pimenta do reino iam direto na panela e estava tudo bem se grudasse um pouco no fundo, era o que dava sabor à comida.

Naquela semana eu prometi não pedir comida. No domingo eu fiz carne com shimeji na manteiga. Servi com arroz feito com cury, polvilhei por cima sementes de gergelim. Na quarta feira fiz sopa de carne com legumes. Grossa como a Dercy Gonçalves e igualmente apimentada. Hoje fiz macarrão à bolonhesa. Também tive coragem para varrer a casa, lavar a roupa, dar banho nas cachorras, terminar uma história, escrever essa crônica. Sentia-me vivo novamente. Era a primeira vez naquela quinzena.

Talvez tenha sido simplesmente o resultado de ter me alimentado direito pela primeira vez em tanto tempo, mas eu tenho outra teoria. Cozinhar para si é um gesto de amor próprio.


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