Papéis de Carta
On February 1, 2021 | 0 Comments

“Tenho sobrevivido a partir de pequenos gestos de amor, folhas perfumadas que o vento pode levar em um sopro.”

Quando era criança eu colecionava papéis de carta. Era uma onda comum na década de 1990. As papelarias ganharam pequenas fortunas vendendo folhas decoradas, com flores, ursinhos, desenhos de boneca ou qualquer outro detalhe fofo. As turmas na escola se sentavam com seus grossos fichários de plástico e trocavam os papéis repetidos, tentando completar uma coleção que na verdade nunca teria fim. Acho que faz mais sentido quando você pensa que as pessoas realmente escreviam cartas, eram outros tempos e talvez por isso você não esteja chocado com a primeira frase desse parágrafo, mas na verdade é ela que importa.

Porquê colecionar papel de cartas era um passatempo reservado as meninas. A regra já estava lá quando eu cheguei e não sei o real motivo disso, mas os meninos deveriam colecionar figurinhas, vestir azul, jogar futebol e brincar com carrinho. Papeis de carta era coisa reservada à outra metade da humanidade, que obrigatoriamente deveria vestir rosa.

O mundo mudou um pouco, infelizmente não tanto quanto gostaríamos, mas mudou. Não sei se as crianças hoje em dia estão tão preocupadas assim com o que podem ou não podem fazer, eu espero realmente que não, mas naquele tempo eu sabia que que as pessoas achariam estranho um menino colecionar papéis de carta e tinha vergonha do passatempo. Minha coleção só tinha sido vista por meia dúzia de pessoas, entre elas minha irmã mais nova, que colecionava também. O resto do tempo meus papéis permaneciam guardados na estante, orgulhosamente protegidos e alinhados dentro dos plásticos do fichário.

Minha família, como toda família, era fruto do seu próprio tempo. Minha avó paterna não escondia o racismo, meu avô materno tinha orgulho da homofobia. Meus pais eram tão rígidos quanto qualquer família com três crianças e dinheiro curto podia ser, vivendo em um cortiço de quarto e sala. Mesmo assim, de algum jeito, eu nunca fui repreendido por colecionar papéis de carta, mesmo que fossem cheios de corações e tivessem cheiro de morango.

Dia desses me lembrei do filho de uns amigos que gosta de se vestir de princesa. Nunca houve nenhuma conversa sobre isso, nem dúvidas sobre o que devia ou não fazer. Lembro do vídeo dele girando o seu vestido azul, enquanto cantava as músicas do Frozen. Não me lembro de outro sorriso tão bonito.

Não sei que fim levaram todos aqueles papéis. Gosto de pensar que eu os tenha usado todos enquanto me correspondia com todas as pessoas distantes a quem amei, mas o mais provável é que tenham sido esquecidos em algum canto, quando precisei da pasta de plásticos para colecionar outra coisa.

Tenho sorte. Em muitos aspectos sou incrivelmente privilegiado. Sei que para muitas pessoas uma história boba como essa não tem um final feliz, enquanto pra mim tudo isso é apenas uma lembrança vaga que alimento por curiosidade. Talvez seja só eu, ou talvez seja o noticiário, mas anda difícil ver alegria ao nosso redor. Tenho sobrevivido a partir de pequenos gestos de amor, folhas perfumadas que o vento pode levar em um sopro. Eu os coleciono, como antes colecionava papéis de carta. Orgulhosamente alinhados, sem dobras ou marcas, para um dia se espalharem pelo mundo. Este texto é mais um deles.


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