Café com vinagre
On August 17, 2020 | 0 Comments

Minha irmã é professora, meu irmão eletricista de estúdio, eu sou designer, estamos espalhados por ai, cada um em sua casa, lutando contra a pandemia, cada um ao seu jeito. Para uns falta dinheiro, para outros sobra trabalho. Em comum apenas a saudade de sentar no quintal dos velhinhos e beber alguma coisa enquanto falamos mal do governo, todos juntos, sem exceções. Não temos nenhum bolsonarista vivo na família, temos sorte.

Semana passada minha irmã me mandou uma mensagem, perguntando o que eu achava da gente romper a quarentena e ir visitar nossos pais. Senti uma fisgada no estômago. A meses a saudade rondava como um bicho, tanto aqui como lá, e a gente fez de tudo para tentar evitar, acreditando em dias melhores que nunca chegaram. Hesitei. Não era seguro. Não era responsável. Meus pais estão no grupo de risco. Minha irmã aguardou uma resposta que não veio e por fim concluiu seu pensamento. “Logo voltam as aulas e ai é que eu não vou poder visita-los mesmo.” Pensei nas crianças remelentas tossindo coroninhas numa sala de aula. Ela me convenceu. Não sou de rezas, mas fiz ali meu pedido por proteção, não por mim, mas pelos outros.

Quando a minha mãe chegou no portão tive que me segurar para não abraça-la. Tudo em mim dizia que era o certo e eu precisava repetir em looping na minha cabeça as ordens para manter os braços cruzados. Foi assim que passei boa parte do dia. De braços cruzados para não ficar tentado, enquanto discutíamos sobre a comida que era sempre muita, sobre a mesa lá fora porquê sempre chovia, sobre a saúde dos bichos, as adaptações do emprego, as antigas viagens e também as futuras. Meus irmãos não comem carne, minha mãe e meu irmão não comem peixe, meu pai não come massa, eu não como frango. O resultado é sempre ter de tudo um pouco: churrasco, salmão, temaki, abóbora com tahini, arroz, beterraba, linguiça e arroz japonês (receita do meu cunhado). A mesa farta e exagerada testando o limite da resistência dos botões das calças, o desafivelar dos cintos, a morosidade da tarde que foi lentamente caminhando para o cafezinho.

– Tem água no fogo, é só passar.

Meu irmão foi voluntário enquanto minha mãe fazia os ajustes em uma das máscaras de tecido da minha irmã e nós discutíamos ideias de como ficar mais confortável para as orelhas. O café logo veio com o bolo de chocolate.

– Esqueci o açúcar.

– Tudo bem, o bolo é doce, bom pra equilibrar.

Escurecia, mas não choveu. Minha mãe perguntava porquê não íamos para a cozinha e eu explicava para ela como sentia falta de um quintal. O céu do horizonte da janela do apartamento não era a mesma coisa de ver o céu sobre a nossa cabeça. Estar ao ar livre, sem estar correndo de um lugar para o outro, vigiando cada espirro ao seu lado, era daqueles prazeres simples que a gente só nota quando acaba. Ela logo entendeu.

Engoli o bolo e o empurrei para dentro com um gole de café. Desceu estranho, azedando tudo no caminho. Pensei no açúcar, comi mais bolo. Outro gole. Outro azedume. Mais um pedaço. A garganta trancando com o fim do dia, com a ideia de ter que ir embora. O pensamento longe, pensando nas cachorras em casa, no apartamento sem varanda, nem céu sobre a cabeça. O tumtumtum ininterrupto da obra, o vai e vem de carro. Outro gole azedo, com menos coragem, sem o bolo. Meu pai ali do lado imitando minha careta a cada gole, até que desistiu.

– Nossa, que café ruim! – Colocou a xícara de lado.

– Achei que era comigo. – Dei risada. –É a marca?

– Se for, vou jogar tudo no lixo.

– Acho que tinha alguma coisa na xícara… – Minha irmã também desistiu.

– Ah! – Meu cunhado levantou o queixo com o sorriso de quem tinha a resposta. – Será que usaram a água com vinagre que usei para fazer arroz?

Um minuto de silêncio, todos olharam para o meu irmão.

– A água já estava no fogão.

A gargalhada escapou por baixo das máscaras de quem havia colocado ela no lugar, enquanto eu engasgava e tossia com o gole de café com vinagre que teimava em engolir, como quem não quer fazer desfeita. Minha mãe que tinha sumido voltou dizendo que alguma coisa tinha lhe feito mal depois do café. Novas gargalhadas. A noite foi chegando junto com a hora de ir embora. Assim como não sabíamos nos cumprimentar, não soubemos muito bem como nos despedir. Fomos saindo, assim, fingindo que estava tudo normal. Gole a gole. Como café com vinagre.

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