Efeito Juju
On February 3, 2020 | 0 Comments

Juju, a vira-lata sorvete de flocos que eu adotei a um ano, gosta de dormir na ponta da cama. Ela se deita, se embola, fecha os olhinhos e até ronca. Pela manhã, normalmente eu a encontro dormindo na mesma posição em que deitou na noite anterior.

Ontem Juju se deitou aos meus pés enquanto eu estava lendo. Ainda era cedo, o barulho da chuva era constante e o livro ia chegando ao fim. Enquanto eu virava as páginas, dava uma olhada para a cadela, de cabeça erguida e orelhas levantadas na direção da porta. Achei estranho, inclusive procurei pela Meg, a vira-lata caramelo, mas ela estava deitada na caminha ao lado da cama. “Na certa algum barulho dos vizinhos.” Pensei. Os ouvidos da Juju são realmente um prodígio. Tão sensíveis que ela ouve a chuva muito antes dela chegar e se encolhe toda de medo. Ontem chovia. Juju não estava encolhida.

Quando acordei hoje, ainda estava escuro. Depois de sofrer com o calor dos últimos dias, aproveitei bem a refrescada que veio com a chuva. Ainda era cedo e eu virei na cama, procurando uma posição para dormir mais um pouco, tentando ignorar o chamado da minha bexiga. A luta era inútil. Afastei as cobertas, pulei da cama e antes de ir no banheiro, passei na sala para verificar as cachorras. Meg abanava o rabo no sofá. Juju não estava. Voltei para o quarto, olhei na caminha, não encontrei nada. Fiquei meio assustado, até perceber que ela dormia na minha cama, meio escondida debaixo dos cobertores. Tão imóvel que eu nem a vi. Já podia ir no banheiro.

Tomei um susto com o flash de luz. O quarto escuro de repente se iluminou com a tela do computador e o pedido de login, mas não foi o brilho repentino que me assustou de verdade, nem o súbito despertar da máquina, que por algum motivo pareceu perceber que eu estava acordado. O que me assustou mesmo foi a absoluta certeza de que o notebook deveria estar fechado.

Fui no banheiro pensando naquilo. A chuva, a Juju, a porta do quarto, o livro. O e-mail que eu escrevi no celular antes de começar a ler. O computador não aparecia nas minhas memórias, exceto no momento em que eu o trouxe para o quarto, achando que iria escrever um pouco, e tenho certeza de que, fechado, ele descansou ao lado da cama. Sai do banheiro com a mente de ficcionista à todo vapor. Hackers, stalkers, espíritos, sonambulismo, mensagens do além, extraterrestres e o desafio das musas para que eu começasse o dia escrevendo. Peguei o notebook, quase temendo que ele me mordesse, digitei meu login. Errei. Digitei de novo, acertei. Nada além do papel de parede de uma praia paradisíaca, lentamente mudando de cor a medida em que a manhã se aproximava.

Pensei em fazer uma piada. Terminar essa história de forma surreal e deixar vocês na dúvida sobre o que tinha acontecido ou não, mas desisti. Resolvi escrever exatamente como aconteceu, sem buscar uma explicação. Eu só queria me livrar dessa estranha sensação de que eu não estou na minha casa.

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