Conto: Diáspora
On September 5, 2019 | 0 Comments

Meu pai sempre se lembrava de quando o dia virou noite. Dizia que era como se uma cortina tivesse se fechado e que chegou até a se benzer, temendo o fim do mundo. Depois veio o frio, com um vendaval de derrubar as coisas e a chuva que manchava a roupa como tinta preta. Muita gente se trancou em casa sem entender, na conversa miúda, tentando descobrir o que deu errado. O governo dizia que não era nada. Só chuva. Só vento. Só fuligem.

Naquela época eles tinham um olho na lua para enxergar a terra do alto e não demorou muito para descobrirem que a fumaça vinha de longe, de quando a floresta pegava fogo. Coisa de gente zoiuda, que precisava de espaço para boi, pra soja, pra estrada, que queria um jeito rápido de sumir com os bichos, as árvores e os índios e que resolveu que com fogo dava pouco trabalho e a terra preta depois a chuva lavava.

Fogo é um bicho sem freio. Só sossega na margem da praia, as vezes se esconde por baixo dos troncos, vai comendo tudo de uma vez, deixando nada pra trás.

O povo deixou o fogo fazer o serviço. Os olhos fechados, dizendo que não era nada, demoraram tanto para tentar colocar o demônio na gaiola que ele tinha ficado grande demais para passar pela porta. Continuou comendo e se espalhando, empurrando os bichos pra longe. Transformando tudo em fumaça. Quando finalmente conseguiram apagar a queimada foi porquê já não tinha mais nada para queimar.

Teve gente que chorou, meu pai dizia, mas muita gente se agradou, achando melhor ver o copo cheio. Transformaram o queimado em pasto, em estrada, em cidade. Plantaram soja. Ganharam dinheiro. O tempo passou.

Não demorou muito para faltar água. Primeiro para o pobre, depois para a soja, por fim para o boi. O governo pedia calma, mas era difícil ter calma quando a garganta arranha com sede ou quando seus filhos reclamam de fome. Faltava calma e sobrava raiva. Também tinha pela estrada muito medo e gente armada. Bem mais do que o governo dava conta. Foi quando o céu ficou vermelho.

O vento não tinha mais chuva para soprar. Bufava areia para o alto, tão forte e tão longe, que até quem vivia na praia aprendeu a usar máscara para não aspirar o pó. Muita gente morreu. Muita gente foi embora. Ficou só quem era teimoso, ou quem não tinha eira nem beira.

Meu pai ficou.

Ele não era teimoso.

Dizem que encontraram ouro na grande cidade do norte e uma bacia de petróleo que a floresta escondia. Dizem que é por isso que eles ainda tem comida. Não sei se é verdade, mas a gente precisa tentar. Mesmo que demore para atravessar as dunas, a gente precisa tentar.

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