Journal : Viver da escrita
On April 15, 2019 | 0 Comments

Sempre que eu me encontro com alguém que não vejo a muito tempo vêm a mesma pergunta: “E ai, está vivendo dos livros?”, minha resposta inevitável é um sorriso amarelo e uma aritmética maluca que termina sempre com algum valor em vermelho.“Viver de livro? No Brasil? Você está falando sério?”Existem somente alguns poucos autores que vivem exclusivamente de venda de livro no país e um número ainda menor dentro da literatura de nicho, como Horror, Fantasia ou Ficção Científica. A maioria esmagadora dos autores que eu conheci – e olha que eu já conheci muitos nessa estrada – tem o seu segundo trabalho, aquele que paga as contas. Alguns conseguem conciliar carreiras de forma mais orgânica, trabalhando como revisores, tradutores, editores, ficando de alguma forma ligado as letras. Outros são corretores de imóveis, lojistas, motoristas de uber, bancários, psicólogos, universitários, ou qualquer outra profissão.

Eu, por exemplo, sou designer gráfico, já trabalhei bastante no universo editorial, mas hoje escolhi ter o aluguel pago e ração para as cachorras, então estou mais focado em publicidade. Sempre travo quando alguém me pergunta o que eu faço. Nunca sei muito bem o que responder, faço tanta coisa, no fim das contas que a pergunta mal faz sentido na minha cabeça. Levo um tempo para processar que o que a pessoa está perguntando de verdade é: “Como é que você paga as suas contas?”e não “O que é que você faz por amor e que te define como pessoa?”A resposta não é a mesma. E tudo bem. Há algum tempo fiz as pazes com o fato de que vou continuar escrevendo e que isso não tem absolutamente nenhuma relação com o fato de ganhar dinheiro. Sim. Ganhar dinheiro seria ótimo. Sim, poder me dedicar exclusivamente a escrever seria incrível, mas se isso não acontecer a vida vai seguir da forma que for possível, desde que eu tenha tempo para me dedicar a escrita. Pois é isso o que eu faço por amor e que me define como pessoa. Sem isso, mal me sinto um ser humano.

Hoje acordei com um post do João Beraldo, autor de Reinos Eternos, Laicus e Jogos de Guerra, falando algo parecido. Sobre como as vezes é desanimador conciliar a expectativa do mundo com a realidade da carreira. Eu me lembro do dia do lançamento do Teatro da Ira, mais de cinquenta pessoas em um bar, conversando animadamente com o meu livro na mão. Na mesma semana, outros trinta exemplares vendidos, mais uns vinte no mesmo mês, talvez dez no primeiro ano, e assim foi indo. Hoje fico contente quando alguém da editora me diz que vendeu um livro meu em uma feira. Não tenho ideia de quantos já foram vendidos, não muitos eu acredito, mas eu continuei escrevendo.

Terminei o Gigante da Guerra que foi imediatamente adquirido por uma editora iniciante, sonhos e promessas de grandeza, era uma das minhas melhores histórias, o lançamento já estava programado quando estourou a crise das livrarias. A editora, iniciante, levou um calote gigantesco, foi demais para quem estava começando. O livro nunca foi lançado. Mesmo ainda tendo os direitos sobre a obra e podendo comercializá-la através da internet, a editora escolheu encerrar as vendagens e como cortesia me deu os exemplares que já estavam impressos. Uma gentileza rara em um universo movido pelo dinheiro. São esses exemplares que eu presenteei os amigos, nunca vendi nenhum.

Depois de muita insistência coloquei o Gigante da Guerra em e-book na Amazon. Era uma forma de testar uma maneira de alcançar o público. O resultado nos primeiros meses não o suficiente para pagar o aluguel, mas consegui pedir uma pizza e dar uma boa gorjeta ao entregador. Depois disso os picos de download acontecem quase exclusivamente quando o livro esta em promoção. Ele custa R$5,99 dos quais recebo 70% menos taxa de entrega, ou seja R$4,10. (Nota: R$5,99 é o menor valor possível se você quiser receber 70% dos direitos autorais. Qualquer valor abaixo disso, a Amazon passa a te pagar 35%. Como exemplo, se o Gigante da Guerra custasse R$5,00, os direitos autorais cairiam de R$4,10 para apenas R$1,75).

Não precisa ser nenhum gênio financeiro para entender o volume de vendas necessário para que os livros comecem a pagar as contas de casa. Fica assustador mesmo quando você começa a pensar o quanto de tempo e dedicação você colocou em um livro para receber esses R$4,00, o desânimo só vem mesmo quando vejo as pessoas justificando a pirataria dizendo que os livros são caros. Pensar nos números é impraticável.

Depois de explicar a matemática para a pessoa que perguntou se eu vivia dos livros, a segunda pergunta é previsível como o nascer do Sol em Vênus. “Então porquê você escreve?”E novamente fico desconcertado tentando entender a sandice da pergunta. Minha resposta padrão é que escrever é como uma coceira. Você pode até não coçar, mas aquilo vai ficar ali te perturbando e você não vai conseguir se concentrar em mais nada. Eu escrevo porquê não tenho escolha. Quando não escrevo não sou feliz e eu aprendi isso destruindo cada átomo da minha vida e tendo que reconstruí-la de novo. Meus piores dias foram os dias de silêncio, onde eu não escrevia nenhuma linha.

Quando termino meu monólogo teatral a expressão das pessoas já passou do orgulho e curiosidade, para a surpresa e indignação, chegando a piedade. Sinto que eles estão prontos  abrir a carteira e me oferecer algum dinheiro para o café e só não o fazem para não me ofender, o que (confesso) acho engraçado. Então eu lembro dos leitores. Dos que resenharam os livros, recomendaram em grupos, me mandaram mensagens. Dos muitos que juraram vingança por eu ter matado seus personagens favoritos. Dos que choraram comigo, dos que me pediram uma continuação. Dos que se recusaram a receber o livro como presente e fizeram questão de me pagar por ele. Dos que me veem desanimar e me dão um pescotapa, uma joelhada no saco e esfregam minha cara no teclado até que eu escreva a próxima linha. Vejo o talento dos colegas que como eu comemoram cada venda, cada leitor, cada resenha e se esforçam para fazer ainda melhor no próximo, varando noite escrevendo para trabalhar no dia seguinte, atravessando o país de ônibus e dormindo no sofá de desconhecidos para ir em feiras carregando caixas e mais caixas de seus livros. Vejo a camaradagem de quem se oferece para dar aquela última revisada, uma leitura crítica, ajuda com uma capa ou mesmo compartilhando o link ou apresentando uma resenha. Gente que está nessa louca batalha diária para promover a literatura, na base do sangue, suor, lágrimas e cafeína. Lembro disso tudo e a única coisa que me vêm ao coração é um orgulho quase patriótico. Uma certeza de que o destino não importa, desde que você tenha escolhido bem quem viaja contigo. É assim que se vive da escrita.

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