Conto : O diabo no quintal com a fúria do sol
On March 27, 2019 | 0 Comments

Eu já acreditei em Deus e no Diabo antes, mas nenhum deles diz toda a verdade. As vezes é difícil lembrar que já fui um moleque pequeno um dia, mas em outras as lembranças são vivazes, como uma colônia de insetos se agitando sob uma nova ameaça. Sei que não fui uma criança fácil, após uma travessura, aproveitava o tempo de castigo para tramar a próxima, como um condenado que conta os dias para voltar para as ruas. Eu tinha uma imaginação ativa e muito tempo sozinho para coloca-la em prática. Vivia trepado em árvores, muros e telhados, travando batalhas imaginárias com alienígenas, nazistas e demônios ou planejando pequenas crueldades de menino.

Minha família era simples, nunca tivemos muito dinheiro. Meu pai era metalúrgico e minha mãe lutava para ajudar com bicos como diarista ou costureira. Faltava tempo e dinheiro para entreter uma criança de nove anos que dormia no sofá. Quando meu irmão nasceu passei a maior parte dos dias com a minha avó, onde havia espaço para brincar.

A imensa chácara onde meus avós trabalhavam era um reino completamente diferente do resto da cidade. Era como entrar por um portal mágico em uma rua deserta e terminar na Terra do Nunca. Seus bosques eram cheios de mistérios, criaturas mágicas, esconderijos secreto e tesouro enterrados. Enquanto trabalhavam, meus avós me contavam histórias de fantasmas, sacis, lobisomens, e outras coisas da roça, mas mesmo esse reino mágico as vezes parecia pequeno para mim e o tédio vencia.

O tédio é uma força perigosa. As maiores crueldades já foram feitas movidas pelo tédio. Por tédio nazistas torturaram seus prisioneiros, estupradores escolheram suas vítimas, os cruzados invadiram a terra santa. Deus, nas páginas do velho testamento, passeia pela humanidade como uma criança entediada, punindo uns, gratificando outros, conduzindo-os de um lado para o outro sem motivo exceto o exercício de sua vontade. No meu reino, eu fazia o mesmo brincando com uma colônia de formigas.

Meu tio havia me presenteado com uma grande lupa de detetive para examinar o mundo, mas eu não demorei a entender o poder bélico que eu tinha nas mãos. Esperava o sol com ansiedade, colocando fogo nas folhas do caderno, ou tentando escrever meu nome em pequenos pedaços de madeira. Havia algo de mágico em ver o sol se concentrando sobre um ponto até que a fumaça explodisse em uma pequena labareda e aquilo saciou minha curiosidade por um tempo, mas era óbvio que não seria para sempre. Logo eu me dediquei a secar folhas verdes ainda nos galhos das árvores e por puro acidente acabei ferindo uma lagarta gorda e preguiçosa que se escondia entre as ramagens roídas pela sua fome. Vi a pequena criatura se torcer de agonia enquanto seu corpo minúsculo ficava preto diante dos meus olhos. Houve um instante de espanto, talvez mesmo algum remorso, mas em minha mente febril eu justifiquei aquele assassinato cruel como uma defesa das folhas que tinham sido devoradas pelo monstro de muitos pés. Foi o suficiente.

Não existe vilania impossível para alguém que saiba como justifica-la a si mesmo. Todo mundo se enxerga como o herói de sua própria história, mesmo que para isso precise pintar a verdade com cores opostas. Assim foram justificadas desde a escravidão, até a chacina dos índios, a extinção das baleias e os “experimentos” de Auschwitz.

Certa vez vi meu tio matar um cão com uma pedrada, dizendo que o animal estava sofrendo. Eu achei curioso o sorriso em seu rosto, mas sabia pouco sobre a vida para encontrar outra explicação. O mundo era um lugar estranho e meu tio também tinha as suas estranhezas. Dizia-se que ele tinha sido uma pessoa diferente antes de entrar no quartel, mas para mim ele sempre foi daquele jeito: matando cães como se não fosse nada ou explicando aos meus avós que os militares só torturavam bandido, terrorista e vagabundo. O herói de uns, era o diabo dos outros.

Eu também me tornei um herói. Não demorei para aplicar a mão divina sobre um inimigo invencível. Deitado de barriga no chão, eu deslizava a fúria do sol sobre uma fileira de formigas, chacinando-as uma após a outra, provocando o pânico. Vez por outra eu encurralava uma fujona com os dedos, ou a imobilizava em uma piscina de cuspe, apenas para vê-la torrar sob o raio da morte. Era eu contra milhões. Para vencer aquela guerra, era preciso usar todos os métodos. Aquelas ali não roubariam mais açúcar. Não destruiriam mais as plantas. Não marchariam mais pelo quintal demandando pelo fim de sua fome. Eu havia decretado o seu fim e aplicava a sentença, uma formiga por vez, para que o exemplo fosse o suficiente a todo o bando. Depois soprava o corpo carbonizado para que jamais fosse encontrado.

Minha vó passou pelo quintal e viu o que eu estava fazendo. Filha de uma cafuza mirrada, que diziam alguns tinha sido pega no laço, havia herdado da mãe boa parte das feitiçarias e lendas que contava quando a limpeza da casa da patroa não tinha dragado todas as suas forças. De onde estava, em silêncio, ela me observou tentando entender que estranha brincadeira era aquela. Imagino que ela tenha suspirado cansada, ou balançado a cabeça reprovadora, e então se abaixou olhando o campo de batalha cheio de corpos encolhidos e soldados artrópodes em pânico.

– Quando morremos – ela disse – precisamos passar pela terra de cada criatura que a gente maltratou nesse mundo para pedir desculpas.

Eu parei a chacina por um instante e olhei para minha avó, que permanecia séria, com a palma da mão encostada na bochecha.

– E se elas não desculparem? – perguntei curioso.

– A gente fica preso e elas podem fazer o que quiserem. Podem te afogar no cuspe, ou te obrigar a trabalhar. Podem te queimar com fogo ou te devorar vivo. Para sempre.

– Como você pode devorar alguém para sempre?

Minha avó sorriu. Era uma pergunta inteligente para um garotinho e ela não tinha todas as respostas, mas fez o melhor que pode.

– Quando elas terminam de te devorar, volta tudo a crescer para elas começarem de novo.

Pensei por um instante nas formigas mortas pelo quintal, na lagarta esturricada sob a folha, nas flores que cortei sem precisar, no gato que chutei para sair da frente, nos passarinhos que tentei acertar com uma estilingada. Todas aquelas crueldades de criança que se faz apenas porquê é possível.

– É isso que é o inferno? – Perguntei.

– Para elas não. – Ela respondeu.

Não fez mais nada para me impedir. Apenas se levantou e voltou as suas tarefas, me deixando ali sozinho com a lupa em uma das mãos e a consciência na outra, observando todo o caos que eu havia provocado na colônia de formigas.

Acho que me tornei uma criança melhor depois daquele dia, mas não por vontade própria. As vezes sonhava que estava morto e as formigas me devoravam dentro do próprio caixão, sem que eu pudesse me livrar delas. Acordava me debatendo e sacudindo os lençóis, para expulsar os pesadelos que caminhavam sobre mim. Passei a deixar pequenos montinhos de açúcar espalhados pelo quintal, como superstição, na tentativa de comprar a minha passagem por suas terras. Quando ninguém estava olhando, eu pedia perdão.

Fui uma criança estranha. As vezes é difícil se lembrar de tudo. As vezes tento dizer que me arrependi e me tornei uma pessoa melhor, mas não sei se isso é válido se tudo o que te faz ser bom é o medo da retribuição. Gostaria de perguntar para alguém se uma vida de gentilezas é capaz de apagar um momento de crueldade. As formigas nunca me dizem nada. Elas continuam caminhando sobre mim, me obrigando a buscar água, me punindo para encontrar comida, sem se importar sobre as bolhas de queimadura que o sol provoca em minha pele. 

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