Ofício: O prego, o escritor e a técnica
On March 26, 2019 | 0 Comments

Dia desses, o membro de um dos grupos literários que eu participo no Facebook perguntou se alguém tinha alguma dica de técnica de estrutura para ele melhorar a própria escrita. Como essa era uma pergunta que eu mesmo já tinha me feito uma dezena de vezes, resolvi responde-lo, mas ao abrir os comentários, me espantei com a quantidade de gente que resumia o ofício a “Leia muito e escreva muito”.

Caramba! Se eu soubesse disso antes! Tanto tempo e dinheiro gasto com livros técnicos, cursos, pesquisas, estudos. Todo o tempo dedicado a entender o mecanismo por trás das histórias, desenvolvimento dos personagens, curva narrativa. Se eu soubesse que era só ler muito e escrever muito, podia ter poupado um bocado desses trinta anos de paixão pelas letras. Diabos! Como eu não vi isso antes?

Bom, talvez alguns fiquem chocados, mas ler muito e escrever muito não é o caminho para se aperfeiçoar como escritor. É o fundamental. Pressupõe-se que alguém que queira de fato se dedicar a escrever tenha o hábito de ler e escrever, mas é preciso também ir um pouco além disso.

Escrever é uma arte, como a escultura, pintura e música e como toda arte se apoia em técnicas para se estruturar e toda técnica pode ser aprendida com o devido tempo e a dedicação e toda técnica pode ser ensinada através de uma teoria que sustente a prática.

Claro que eu acredito que uma pessoa dedicada pode extrair o necessário para escrever bem unicamente lendo grandes autores e praticando diariamente, assim como eu acredito que uma pessoa dedicada pode empurrar um prego para dentro da madeira usando a própria testa, mas vocês precisam concordar comigo que usar um martelo é mais rápido e indolor, certo?

A verdade é que você pode entender tudo o que precisa sobre drama lendo Dickens, tudo o que precisa sobre cadência lendo Shakespeare, tudo o que interessa sobre metáfora e alegoria lendo Saramago, e tentando reproduzir o que eles fizeram dia após dia através dos anos, até que a luz se acenda em algum lugar e o prego finalmente penetre na madeira. Ou pode usar um martelo que alguém sabiamente forjou antes de você, para que você não rache sua cabeça e dedique mais tempo fazendo o que quer, do que aprendendo a fazer o que quer.

Outro medo bastante comum quando se fala sobre o aprendizado de técnicas é de que uma técnica qualquer possa engessar o trabalho do autor e atrapalhar a sua fluidez. Esse medo se sustenta na dificuldade que os iniciantes de qualquer arte têm em reproduzir a própria técnica. Quando aprende a andar, um bebê precisa se concentrar em cada movimento do seu pé, mas a medida em que continua praticando, ele já não pensa mais no que precisa fazer, apenas faz. É a mesma coisa com qualquer arte, através da repetição e da experiência vamos lentamente internalizando o processo até que ele se torne natural.

Por fim, existe a experimentação. O universo literário é feito de diversos teóricos, que trabalharam muito para chegar a um processo de desenvolvimento que funcionasse, mas o que funciona para o David McKee, não necessariamente vai funcionar para você. O importante é que você entenda o processo para extrair dele o que acha útil, descartar o que é inútil e começar a construir o seu próprio processo de escrita. Quanto mais técnicas você aprender mais seguro vai se sentir para escrever sobre o que quiser.

Eu sei que as vezes o estudo da técnica pode ser maçante, principalmente quando você tem uma ideia e quer coloca-la no papel o mais rápido possível. Também sei que tem gente que funciona bem apenas sentando e escrevendo, sem se preocupar com o que acontece em seguida, mas esses casos são raros. O contrário é muito mais comum e tem muito menos sofrimento. Gente que se dedicou tanto a entender o processo de escrita, quanto em exercitar a imaginação diante da página em branco.

Escrever é uma arte solitária e por mais que outros possam te dar uma direção, o seu caminho é uma escolha pessoal. Aquilo que funciona para mim, pode não funcionar para você e vice-versa, mas, apesar disso, é fundamental respeitar aqueles que passaram tanto tempo desenhando mapas para facilitar o seu trajeto. Ser um autor é mais do que “ler muito e escrever muito”. É entender a engrenagem por trás de cada livro lido e escrito, ler muito e escrever muito é apenas o começo da jornada.

Boa escrita.

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