Limites
On July 12, 2018 | 0 Comments

Foi um amigo meu que me levou a primeira vez. Quando ele me contou eu achei estranho, ele não tinha cara de quem curtia essas coisas, mas me chamou assim meio de canto, tentando mostrar naturalidade. Confesso que fiquei curioso, mas achei que era brincadeira e ele desconversou. Na segunda vez ele falou com mais certeza e a curiosidade me venceu. “Normal! – ele me disse – Só experimenta!”. Nós não estávamos sozinhos, tinha mais gente por perto, uma galera experiente, dando risada ou compenetrado, levando a coisa super a sério, o que deixava tudo ainda mais engraçado. Eu não fiz nada, só fiquei no meu canto olhando a palhaçada dos outros. Foi por causa das risadas que eu voltei nos outros dias. A galera já tinha mudado, mas a diversão continuava a mesma e eu já me senti a vontade para dar um peteleco. Um chistezinho, nada demais. Na terceira vez eu vi que a coisa não iria parar e comecei a interromper as pessoas para saber se a coisa era séria. Tinha uma galera dizendo que sim rindo, outra dizendo que não falando sério e também tudo invertido. Depois isso se tornou minha rotina diária. Eu nem via o amigo que me levou, aquilo também não importava. Eu estava determinado a entender aquela experiência a fundo. De repente não era mais divertido, mas eu não conseguia mais me segurar. Sabia que não estava me fazendo bem, que era tóxico, destrutivo, mas acordava no meio da noite me coçando de agonia e sabia que só tinha um jeito de fazer aquilo passar. Não sei quando a coisa virou ódio. Eu olhava aquelas pessoas se consumindo daquele jeito e tinha vontade de sacudi-las para que elas voltassem a realidade, mas não havia nada que eu pudesse falar, nada que pudesse mostrar, para tirá-los daquele transe. Eu estava profundamente mergulhado na vergonha alheia, tentava me esconder sempre que via alguma daquelas pessoas passando pela minha frente. Sentia um ímpeto quase irrepreensível de ofendê-las, como se só assim pudesse provar que era diferente, superior, esclarecido. Mesmo que elas não estivessem ligando para nada do que eu estivesse falando e continuassem mergulhados em suas próprias fantasias. Quando eu entendi que aquilo não fazia bem nem para mim nem para eles, eu finalmente consegui forças para me afastar. O processo não foi fácil, era preciso muito esforço. Todo dia, agora, é uma vitória, mas eu sigo lutando em silêncio. Recentemente eu reencontrei o meu amigo, mas quase não o reconheci. Ele é um deles agora. Rindo de todos, desafiando a própria lei da gravidade, queimando livros de matemática e história. Ele parece bem. Acho que por fora, todos parecem bem. Trocamos cumprimentos e seguimos nossos caminhos. O ódio já não existia mais, somente uma profunda melancolia e uma certa pena. Hoje eu resolvi escrever esse texto. Deixar para a posteridade um alerta do que pode estar acontecendo ai mesmo na sua família. Os sinais são confusos e é preciso ficar atento para que o drama não continue se repetindo. Se você conhecer alguém que acredite na Terra Plana, não ria, não discuta, não lhe dê espaço. Não tente usar a lógica, nem lhe mostrar provas. Silenciosamente apenas se afaste com um abano de cabeça e deixe-os sozinhos em sua loucura. Eles podem estar pregando uma peça, ou podem acreditar realmente nisso, não importa. Se você se aproximar demais, se achar que pode ficar por perto para rir, ou se esforçar para mostrar a gravidade de seus argumentos, sinto muito. Você está perdido, lentamente navegando para a borda do mundo.

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