Estação Central
On June 28, 2018 | 0 Comments

O despertador tocava irremediavelmente as 5:00, obrigando-o a se levantar no escuro. Lutava contra os pulmões procurando por ar, pensando em tudo o que tinha deixado para fazer no dia anterior. Preferia ficar dormindo, mas se levantou. Vasculhou os armários em busca de algo para o desjejum, encontrou cocô de barata, duas bolachas de sal e o último saquinho de café solúvel. Esquentou a água pensando que outro mês chegava ao fim e nada da promoção que seu superior havia prometido. Respirou fundo. Tossiu tentando se livrar do pigarro nos pulmões e aproveitou a casa em silêncio para fazer anotações sobre o relatório da reunião trimestral. Era a primeira vez que falaria para o conselho e não teria outra chance de apresentar sua ideia. Aguardava aquela oportunidade a três anos e se eles gostassem, poderia se mudar para o centro e tirar seus filhos daquele buraco. Ensaiava as respostas para todas as perguntas possíveis.
Quando a água esquentou se deu conta de que estava atrasado. Queria fugir da hora do rush. Queimou a língua enquanto engolia o café solúvel e se vestiu apressado tentando não acordar a casa inteira. Fechou a porta do apartamento com um rangido e três cliques de chave e desceu as escadas correndo, prometendo que no dia seguinte acordaria mais cedo, exatamente como tinha prometido no dia anterior.
As ruas estavam vazias, o que era sempre um bom sinal, mas não queria dizer muito. Era só uma rua deserta em um bairro quieto, mesmo assim andou apressado, não convinha facilitar naquela hora. Olhava para os lados procurando perigo. No dia anterior um vizinho havia sido assaltado. Os bandidos não se importaram com a sua idade, nem sua saúde. Deixaram-no caído no meio-fio. O velhinho gritou quarenta minutos por socorro, mas ninguém veio. “As pessoas não se importam mais com seus semelhantes”. Pensou com tristeza enquanto assistiu a cena. Teria ajudado, é claro, mas o que poderia fazer contra três bandidos armados? Além do mais estava atrasado, era terceira vez naquele mês, não podia acontecer de novo, não na semana em que queria impressionar seu superior. Lamentou o egoísmo das pessoas e seguiu seu rumo. Queria saber o que houve com o velhinho.
Perto da estação já havia mais gente. Todo mundo de cabeça baixa, toca, gorro, cachecol e mau-humor. Passos cada vez mais curtos, se espremendo na entrada. Aquela boca faminta que devorava gente para expelir peão. Ombro a ombro, em uma massa compacta e diversa, que variava bastante em deveres, mas quase nada em direitos. Ninguém que mandasse mesmo, essas pessoas viviam no centro. O movimento parecia maior do que na segunda. Na segunda ele havia encontrado um canto de costas para a porta e conseguido ler metade do relatório da logística sobre o impacto do aumento da produção. Um homem lhe olhou irritado, enquanto ele lutava para virar as páginas sem mover os cotovelos, mas não lhe deu importância, pelo macacão era do chão da fábrica. Hoje não achou que conseguiria ler seu relatório, muito menos tomar notas. Era um movimento estranho para aquela hora.
– O trem está com intervalo maior. – Alguém comentou ao seu lado. Ele tentou virar o rosto para ver quem havia sido, mas a pessoa tinha se perdido na multidão. Aquilo explicava. Ficou com medo de chegar atrasado. As pessoas viravam animais quando lutavam por espaço. Ele abriu caminho usando os cotovelos e se enfiou para frente, rezando para não cair nas escadas.
Uma mulher estava parada diante da catraca, tentando validar seu bilhete e ele a empurrou para o lado, lutando para passar. A mulher empurrou de volta, avançando contra ele com as unhas, mas ele era mais rápido, fintou de lado, bateu o bilhete e girou a catraca, sendo levado pela multidão que se arrastava para a plataforma. Empurra-empurra, gritaria. Nessas horas o movimento era quase sempre sentido centro. Viu um trem parado, janelas cobertas de pó, metal roído pela chuva, gente se acotovelando para dentro testando as leis de Newton. Era preciso ter cuidado para não ficar preso entre a multidão atrás de si e a porta que se fechava a sua frente. Se cagava de medo de cair no vão. As pessoas se moviam como ondas, empurrando para frente e para trás, com medo dos trilhos.
– Hoje tá demais! – Alguém falou. – Alguém caiu na linha dois.
Era uma pena, mas acontecia com mais frequência do que as pessoas diziam. As vezes a pessoa caía, as vezes simplesmente saltava. Ele não gostava de admitir mas também pensava sobre isso as vezes. Seria fácil. Seria rápido. Um pulo e a luz do trem. Não precisaria mais acordar cedo, seria o fim das reuniões e dos relatórios, mas não podia. Tinha filhos. Esperou o próximo trem. A galera se acotovelando. Tromba-tromba desgraçado. Ele morria de medo do vão e tinha medo das agulhas também. Sempre tinha aquela história de gente com agulha contaminada na multidão. Morria de medo de sentir uma picada. Não saberia nem o que fazer. Contaria para alguém ou esperaria o resultado? E se adoecesse? Se sentisse uma agulha, preferia saltar nos trilhos. Era um fim mais digno. Entrou.
Foi empurrado até o outro lado do vagão, mas não achou ruim. Ficou com a cara colada na janela. Não podia respirar, mas podia fingir que no mundo não existia tanta gente. O trem continuou parado, enquanto as pessoas se empurravam para dentro, parecendo sempre que não caberia mais ninguém e mesmo assim cabendo mais cem. Uma vez ele se desequilibrou e levantou o pé do chão, quando tentou voltar para o lugar, não tinha mais onde pisar. Fez o percurso feito um perneta, sentindo o joelho estalando a cada curva. Desde então mantinha os pés firmes e o mais separados possíveis no chão para manter o equilíbrio. O trem andou, alguém disse graças a deus, mas Deus não existe em um trem lotado. Aquela era morada daquele outro. Aceleravam, as pessoas mudas, a luz do teto do vagão piscando naquele ritmo que dava dor de cabeça. Olhou na janela para o túnel escuro, fingindo acreditar na ilusão de velocidade. Era lento, sabia, mas não tinha outro caminho. Pelo menos estava na janela. Podia ter dado azar, podia ter ficado enfiado debaixo do braço de alguém. Tinha impressão de que as pessoas já saiam de casa fedendo. Ele chegava no trabalho querendo tomar um banho. Naquele dia não. Estava com a cara colada no vidro sujo da janela e não precisava cheirar o sovaco de ninguém. Não dava para ler, mas podia pensar na apresentação. Se desse certo a produção saltaria 5%, parecia pouco, mas na atual conjectura era realmente muito. Estava feliz com aquele pensamento. Chegaria no trabalho e se limparia com um lencinho umedecido antes de entrar na reunião, para tirar o cheiro do trem.
Pararam em mais uma estação. Ninguém desceu, entrou mais gente. Um rapaz literalmente se empoleirou no pescoço de outro, para conseguir embarcar e aquele era o horário mais tranquilo. Não podia nem imaginar acordar mais tarde. Em breve, porém, moraria no centro. Pensava em como seria ir trabalhar a pé. Seus filhos poderiam andar sozinhos, os armários teriam comida e não teriam baratas. Sorriu. Era o único sorriso no vagão inteiro. O trem voltou a andar, as pessoas voltaram a se debater. Alguém gritava por falta de ar. Semana passada um garotinho morreu. Ninguém reparou quando ele passou mal e a multidão manteve de pé o seu cadáver. Diziam até que ele foi levado pela turba até a estação final, subiu as escadas e só caiu quando passaram a roleta. Só ali se deram conta de que o rapaz estava morto. Não teve pânico, nem nada. Só um “eita” e segue o jogo. Duas estações e já havia gente chorando. Nessas horas ele só torcia para o trem não quebrar. Isso sim seria o inferno. Toda aquela gente espremida em um espaço tão pequeno, sem ideia se conseguiria descer. Sentia calafrios. Não gostava nem de pensar nisso.
Sentiu o aclive da linha, as pessoas se empurrando para o fundo do trem, sem vontade alguma contra a gravidade. O trem sairia a superfície. Fazia tempo que não olhava pela janela, não se lembrava da última vez que havia visto o sol. Ficou animado, o dia prometia ser bom. Viu a inveja nos olhos de um rapaz vizinho e se sentiu vitorioso como a muito tempo não se sentia. O trem desacelerou ao chegar ao topo, esperou a vez do seu vagão, o túnel estava ligeiramente mais claro, então a luz doeu em seus olhos. Demorou um instante para se acostumar, tentava ver algo através do pó do vidro, o trem trafegava acima da cidade. Sombras de prédios e ruas. Ele se lembrava daquele pedaço de quando era mais jovem. Viu o cinema em ruínas onde assistiu Madrugada dos Mortos, a lanchonete onde tinha roubado seu primeiro beijo, fazia muito tempo. O sol em seu rosto era bom. O trem contornou a grande cratera da explosão. Nada havia crescido. O resto era cimento rachado e ervas daninhas. Uma sombra balançou sobre o vagão e ele desviou os olhos da janela morrendo de medo de ter sido visto. O rapaz que estava com inveja agora ria se sentindo vingado.
– Vai, otário! Se fode ae! – Os outros riram. Ele se sentiu pequeno. Tinha sido por pouco. Sabe-se lá o que aconteceria se a coisa o tivesse visto. O trem seguiu adiante, as pessoas estavam ansiosas pela segurança dos túneis. Ele tentou se afastar da janela, mas agora era impossível.
Ouviram um baque no teto e ouviram o metal do vagão se encurvar sob o peso. Ninguém disse nada. Um homem gigante começou a chorar. Era possível sentir o cheiro da urina escorrendo pelo chão. Ele torceu para que o trem não parasse. Se parasse chegaria atrasado e perderia a chance de falar com o conselho, daí só no próximo trimestre e ele não aguentaria aquele trajeto por muito mais tempo. Algo arranhou o metal, como se tentasse escavá-lo e uma mulher fez o sinal da cruz sem mover os cotovelos, esperando que alguma entidade superior estivesse lá olhando por ela. Ele achou graça de como algumas pessoas mantinham a fé mesmo depois daquilo tudo. O trem terminou a curva e a coisa se desequilibrou do teto, alçando voo, passando do lado da sua janela. Ele quase se borrou, o que seria péssimo para a sua reunião. Ficou se imaginando de pé diante do conselho, com as calças sujas de bosta. Seria melhor voltar para casa. Melhor ainda seria pular na frente do trem. Agradeceu a falta de comida e a perseverança do seu esfíncter.
Na curva, ele podia ver a locomotiva lá na frente, puxando os vagões em direção ao outro túnel. Mais adiante, depois dos prédios completamente devastados e cobertos pela natureza, o domo de ferro vermelho do centro. Sorriu. Estava no horário. O trem foi engolido novamente pelo túnel e ele sentiu o alívio contagiando a todos. Até mesmo o rapaz invejoso. Alguém pediu desculpas por ter mijado no pé de outro alguém. O riso percorreu todo o vagão. Depois da primeira parada ele já podia descolar a cara do vidro. Depois da segunda ele podia mover os braços. Olhou para o relógio. Bem a tempo! O trem parou na estação central e todos desceram. Ele esticou os braços, estalou o pescoço, desceu da estação e olhou para as luzes que se acendiam presas no topo do domo. O dia começava no centro. Haviam borrifadores de água presos ao teto que eram ligados uma vez por mês; o ar parecia mais limpo mais ou menos como o que ele se lembrava da chuva. Seus filhos iriam adorar viver ali.
A sirene de ataque soou alto. As pessoas correram procurando por abrigo. Soldados atravessaram a estação com estardalhaço, batendo as botas contra o chão de granito, as balistas saltando contra as armaduras. Ele abriu caminho para sua passagem e seguiu em frente, não tinha tempo a perder com o espetáculo. Ouviu um estrondo alto e uma gritaria generalizada. Metal rasgando e uma lufada de vento cheirando a enxofre, resistiu a tentação de espiar e seguiu para o escritório. Ouviu o grito da coisa reverberar pelo domo de ferro e agradeceu aos céus por ter chegado antes do toque de recolher. Entrou no prédio da administração com um aceno para o segurança. Um barulho de metralhadora e gritaria abafando o seu bom dia.
– É hoje então? – O segurança sorriu na expectativa.
– Hoje sim. Torça por mim.
– Vai dar tudo certo. – Falou com confiança. Se um dia fosse promovido, não se esqueceria daquele rapaz. Nem passou em sua mesa, foi direto para a sala do conselho. Seu coração batia a mil. Suas mãos suavam. Bateu na porta mas não esperou autorização. Abriu-a com um sorriso confiante no rosto e o viu desaparecer quando encontrou as cadeiras vazias. Pela janela grande janela, um rasgo no domo de ferro deixava a mostra o céu escarlate, onde uma série de tentáculos se agitavam com uma calma milenar. Ele não podia acreditar. A reunião fora remarcada para outro dia.

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