Sete coisas que eu não aguento mais no gênero fantástico
On February 20, 2018 | 8 Comments

Clichês existem, são reais, estão por toda parte e ninguém está 100% imune a eles. Jhomm Krulgar, o mercenário selvagem do Teatro da Ira não deixa de ser um clichê que eu apimentei com um passado monstruoso e um futuro pior ainda. Um clichê existe porque funciona, mas isso não significa que você precisa usá-lo em sua forma bruta, você deve deturpá-lo, para que ele tenha a sua cara e fuja do que é previsível. Lembrando sempre que mais vale um clichê bem escrito do que uma ideia “inovadora” (com aspas mesmo) mal realizada. Bem, é sempre bom avisar que essa lista reflete um gosto pessoal e não diz respeito a nenhuma obra específica, então vamos começar:

1. O príncipe oculto

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Quem não conhece a história do príncipe (ou princesa) que, após a morte dos país, se protegeu no anonimato, misturado a plebe até o dia em que alguém lhe fala de suas origens e ele passa a lutar pela sua herança. O príncipe oculto é sempre nobre, leal e honesto, como se tudo isso fosse uma característica genética que o valida como futuro governante e herói da nação. A história é um clássico mitológico, bíblico, literário e cinematográfico e se você estiver escrevendo uma história assim, pare agora e comece de novo.

2. A guerreira de espadão

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Se o seu personagem principal é uma guerreira ruiva de biquíni de metal usando uma espada gigante, existe 99,9% de chance de você ser um rapaz que precisa de uma namorada. Sério. Deixe esse personagem de videogames de lado e concentre-se em uma heroína de verdade. Sim, a mulher sexy e bad-ass também é um clichê ambulante, mas já que você quer escrever uma personagem desse tipo, seria bom escapar dos apelos visuais para atrair seus leitores. Quem é essa mulher? Pelo que ela luta? Como ela se veste? Não, não tem justificativa cultural para ela estar lutando com um biquíni de metal, exceto uma forma bizarra de suicídio. O cinema e a literatura vêm sendo recheadas de mulheres guerreiras com a personalidade de um pires, não faça isso com seus leitores de novo.

3. O senhor das trevas

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Em algum lugar em uma terra sombria, tem um castelo sombrio, onde vive um lorde sombrio que controla um exército sombrio. Cujos objetivos quase que invariavelmente é a dominação/destruição do mundo. Se eu acabei de descrever seu antagonista, entenda: eu escrevi mais da metade dos antagonistas da fantasia e provavelmente todos os da alta fantasia. Toda vez que eu leio uma história e encontro o senhor das trevas, sinto na alma a preguiça do autor em desenvolver o personagem, mas calma. No fim, tudo é uma questão de motivação. Classificar o senhor das trevas como a encarnação do mal que precisa ser combatido é só uma forma de fugir do trabalho que dá encontrar as motivações para ele agir dessa forma. O lado bom é que se você encontrar uma motivação forte o suficiente para o lorde das trevas agir como antagonista dos seus heróis, você terá uma história muito mais forte. Minha dica é: para criar o antagonista, gaste o dobro do tempo que você levou para criar o protagonista. Ele é quem vai colocar a história em movimento.

4. A garota em perigo

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Gente, chegamos ao século XXI, as mulheres estão nas ruas protagonizando a própria história. Ninguém aguenta mais a donzela indefesa que fica sentada na cela esperando o herói vir salvá-la. Piora um bocado quando ela é a única garota da história e só aparece como objetivo/prêmio do herói. Aqui vale de novo aprofundar a personagem, tirá-la do genérico e leva-la ao original. Ajuda para caramba se ela tiver ações com impacto real na trama da história. Faça o teste, se você puder substituir a garota em perigo por um objeto inanimado sem mudar muita coisa na história, fique com o objeto inanimado. Sério. Ninguém precisa de uma personagem ocupando o lugar de uma cadeira.

5. A profecia do escolhido

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Muitas vezes o príncipe oculto é também o escolhido da profecia, mas nem sempre. Se seu herói foi escolhido pelas forças divinas para encarnar a profecia e salvar o mundo, eu espero que ele morra de forma patética. Talvez esse seja o clichê que eu mais odeie em toda a lista e um dos poucos que me faz ter vontade de desistir de prosseguir com a história. A profecia é outro artifício preguiçoso do autor para colocar a história em movimento. É genérica, batida e bastante monótona. Parece familiar? Pare ai mesmo. Ninguém merece ver essa história de novo.

6. O herói sem passado

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Outro caso de preguicite do autor. O personagem surge adulto no meio da ação e ninguém nunca sabe nada sobre o passado dele. O mistério pode parecer sedutor, mas a gente sabe que na verdade o autor teve preguiça de pensar em uma história para ele, sua família e os primeiros anos de sua vida. Personagens com amnésia e órfãos entram aqui, no lodo da falta de imaginação. Gaste uns minutos pensando na infância do personagem, em como ele cresceu, qual foi a sua formação, o que ele gostava de fazer, o que era obrigado a fazer, quem foram seus familiares, quem eram seus amigos, como era a casa onde ele viveu. Gaste um tempo transformando esse pedaço de papel sem graça em alguém que respira, anda, se apaixonou, bateu e apanhou. Não poupe sua história de cicatrizes, elas o tornarão único.

7. O exército monstruoso

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Todo mundo sabe que os monstros são do mal e os heróis são sempre lindos. O exército do senhor das trevas tem que ser monstruoso e genérico, para ser decapitado sem a menor pena pelo belo príncipe em seu cavalo branco. Alguém já se perguntou por quê? Exércitos monstruosos, ou soldados genéricos com mascaras sem rosto, são uma forma de desumanizar o inimigo e torna-lo indigno de piedade. Esse mecanismo é usado no treinamento militar ao redor do mundo inteiro, criando uma barreira natural entre os exércitos. Essa massa uniforme de guerreiros sem valor são como o mingau mais sem graça que você pode usar em uma história. Toda guerra tem dois lados e ninguém se enxerga como o vilão da própria história, então pense no que faz os seus exércitos lutarem. Transgrida as questões estéticas e faça um herói feio, um vilão apaixonante, um exército bonito e orgulhoso que luta por uma causa aparentemente justa. Humanize seus monstros.

A verdade é que essa lista poderia ser muito maior. O velho mago sábio, o negro místico, a Inglaterra genérica, o catolicismo disfarçado, etc. Não acho que a presença de qualquer um destes clichês fará a sua história imprestável, mas você pode ter certeza de que vai precisar se esforçar duas vezes mais para me conquistar se um destes aparecer na sua história. Não é preciso muito para fugir das histórias comuns, as vezes a dificuldade fica em identificar onde estamos repetindo velhas histórias, se este for o caso, espero mesmo ter ajudado.

E vocês, o que não aguentam mais ver em histórias de fantasia?

Comments8
Wladimir Cavalcante Posted February 21, 2018 at12:25 pm   Reply

Estou impressionado. Parabéns mesmo pelo texto. Não tenho nada a acrescentar, exceto que o senhor errou no uso dos porquês. Fora isso, impecável.

Diego Guerra Posted February 21, 2018 at1:37 pm   Reply

Obrigado pela dica, Wladimir, espero ter corrigido direito.

Kenichi Edilan Posted February 21, 2018 at9:15 pm   Reply

O primeiro e o sexto não me incomodam tanto. O primeiro porque meu projeto atual tem uma história assim, haha, com a diferença de que meu protagonista descobre que é herdeiro de um governante há muito caído e é covarde, ladrão e não quer o trono, ele está longe de ser o herói tradicional. Já o sexto não me incomoda se o autor me dar informações ao longo do livro.
Tirando estes, concordo com os outros.
Um clichê que estou detestando é o de um sistema de magia baseado nos quatro elementos. O autor nem se digna a desenvolver algo, só copia o que já existe.
Ademais, ótimo texto!

Diego Guerra Posted February 22, 2018 at10:33 am   Reply

O mais importante é identificar os padrões para descobrir onde a gente pode fazer diferente. Adoro quando um clichê é virado do avesso. Boa sorte com seu projeto! 🙂

André Meirelles Posted February 21, 2018 at10:13 pm   Reply

O que seria o “negro mistico”?

Diego Guerra Posted February 22, 2018 at10:34 am   Reply

Oi André, o “negro místico”, é um personagem recorrente em muitas histórias. É considerado um estereótipo racista, recomendo o artigo: http://www.vortexcultural.com.br/artigos/estudo-de-personagem-negro-mistico/

Flavio Souza Posted February 23, 2018 at10:27 am   Reply

A profecia do escolhido no mundo feminino é chamado de Mary Sue.

Gabriel Augusto Posted February 25, 2018 at7:34 am   Reply

No meu caso a minha princesa oculta é oculta apenas pelas pessoas, a própria sabe que é herdeira, mas todos acham que ela morreu, assim como o pai dela. A diferença também é que ela quem é a antagonista principal.

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