Quase
On April 9, 2017 | 0 Comments

Estou cansado dessa vida de “quases”. De trabalhos quase concluídos, de metas quase alcançadas. Cansado de ver a linha de chegada se distanciando a cada passo. Cansado de ser quase bom, de ser quase reconhecido, de ter quase certeza. Perder por pouco é pior do que não chegar nem perto. Perder por pouco te tá a sensação de que o fracasso é todo seu. Quase não durmo durante a noite, pensando nas coisas que eu quase fiz. Histórias que eu quase escrevi, pessoas que quase conheci. Estou cansado de viagens quase estonteantes, relacionamentos quase felizes, sanduíches quase perfeitos, decepções que se desfazem quando a conta chega e você não sabe se volta. Estou cansado de quase quebrar a cara, de errar por pouco, de quase sofrer um acidente, estou cansado desse café quase morno que me servem toda manhã e que eu engulo porquê não está frio. Os dias passam sem maiores dores, dá até pra dizer que sou quase feliz, mas as palavras quase que não saem. Estou cansado de quase não ver as pessoas que eu gosto, e de quase conseguir escapar daqueles que não gosto. Ou do inverso. Cansado desse copo milimetricamente pela metade, cujo conteúdo quase ninguém questiona. Estou cansado de quase ter terminado o livro, de quase ter visto o final do filme, de quase ter saído para almoçar, cansado de quase pegar o telefone, de quase escrever uma carta, de quase me arrepender de todas as merdas que eu quase não fiz. É exaustivo quase acreditar em todas essas mentiras que são ditas diariamente, entre olhares constrangidos e sorrisos pretenciosos, como máscaras de papel machê, cuja cola se desfaz na chuva. Estou cansado desse quase sorriso que eu estico na minha cara, com anzóis de sertralina e álcool que quase me tornam uma pessoa de verdade. Estou cansado de quase viver. De adiar para amanhã desejos que eu nem tenho. De acreditar que falta pouco, que logo tudo vai melhorar. De que amanhã será outro dia e que desta vez, juro, tudo vai dar certo. Estamos quase lá.

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