Santos Canalhas
On September 30, 2016 | 0 Comments

Todo canalha que eu conheci nessa vida nunca se reconheceu como tal. Existe sempre uma desculpa, uma injustiça que precisa ser equilibrada, um acidente que o levou àquele ponto. Todo corrupto, todo mau caráter, todo biltre, tem sempre na ponta da língua as circunstâncias atenuantes que o levaram àquele estado, assim como todos os argumentos e provas que mostram que, de fato, ele tem sido injustiçado e vem sofrendo calado como um mártir os rigores do julgamento alheio. Até hoje, nenhum patife, quando pressionado contra a parede, se confessou como tal. São homens santos cuja sociedade injustamente condena. Não, a culpa nunca é do pilantra. O dinheiro pulou para dentro do seu bolso, o colega de trabalho não era a pessoa certa para a promoção, a mulher não se deu ao respeito no meio da rua, o dinheiro para pagar as dívidas não sobrou depois do almoço caro daquele restaurante da moda, da última viagem para a Europa, do abajur milionário na porta de entrada. De fato, o canalha é um injustiçado. Um pobre coitado que resiste a tudo calado, limpando a sujeira do fundo do aquário, como o peixe que lambe o limo da pedra. Com a experiência em ser acusado, porém, o pilantra se torna um bastião da ética, capaz de apontar os menores erros em qualquer um ao seu lado, reconhecendo no outro os pecados que é capaz de justificar tão prontamente em si mesmo. O patife, quase sempre, torna-se no espelho o bastião da moral e da ética. No auge de seu auto-conhecimento, talvez, o canalha se enxergue apenas como alguém esperto, como um flexor das regras, alguém criativo em torcer as circunstâncias ao seu favor e que não quer prejudicar ninguém, mas, hey, são coisas da vida. Modesto e recatado o mau caráter pode até se vangloriar de seu último golpe de mestre. Do dinheiro por baixo da mesa, da empresa de fachada, das dívidas postergadas, dos impostos não pagos, da habilitação comprada, do gato da net, da carteirinha falsa do cinema, do trust e paraísos fiscais, da mansão em Paraty, do fornecedor que faliu antes de receber seu pagamento, do funcionário que foi mandado embora e está com o aluguel atrasado, da forma bonita em que ele pavimentou sua vida, com os crânios de todos aqueles que se curvaram em seu caminho. Nada disso é sua culpa. Existe mesmo uma ótima explicação para isso.

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