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On May 10, 2016 | 0 Comments

Sou único colono do meu próprio planeta. Já não sei quantos dias, meses e anos se passaram desde que minha nave pousou por aqui e eu enfrentei a tempestade de pedregulhos para encontrar morada. Existe conforto na minha base, tenho uma janela que se abre para o horizonte e quando o tempo está bom, recebo os sinais do espaço, mensagens truncadas de vozes que escaparam da garganta a anos, vagando através de nebulosas em busca de um ouvido morno. O meu é duro, metálico, burro. O dia-a-dia segue a mesma rotina enfadonha que eu sou capaz de repetir sem pensar. Banho, refeição, trabalho, refeição, trabalho, refeição, lazer e cama. Por lazer se entende a mesma biblioteca de livros, os mesmos álbuns de música, os mesmos filmes em cartaz desde que a humanidade era uma criança. Eu também já fui criança. Lembro-me de olhar para as estrelas sobre a fogueira de acampamento e dizer que eu as tocaria um dia. Aqui estou, mas não toco nada. Minha capsula me mantém seguro enquanto durmo e meu traje garante que eu não sufoque e morra enquanto exploro esse mundo. Existe sempre oito centímetros de plástico, metal e cerâmica entre mim e a realidade. Tudo o que eu toco foi fabricado pelo homem. As vezes é difícil ter certeza se estou vivo. Nunca tenho certeza se estou acordado. Mas as vezes eu sonho. Talvez seja um sonho dentro do sonho. Eu estou nu em uma planície verde, sentindo o vento eriçando meus pelos e enchendo meus pulmões de ar, mas quando inspiro sinto na boca o mesmo gosto de metal que fica depois que o ar foi tantas vezes reciclado. Ou talvez seja coisa da minha cabeça. Talvez o ar tenha sempre sido assim. Nas praias intocadas de Natal, nas encostas das montanhas de Medelín, nas cachoeiras azuis de Alto Paraíso. Talvez o ar ainda tenha gosto de bateria velha. Eu gostaria que, entre as peças e cacarecos que foram despachados para cá, alguém tivesse pensado em enviar um daqueles robôs com quem a gente pode conversar, com respostas automáticas para questões filosóficas. A merda de um iPhone já serviria. As vezes o silêncio é tão grande que eu quase posso ouvir os fantasmas alienígenas dançando do lado de fora. Sombras de um mundo que morreu e ao qual eu assombro. Nesses dias tenho vontade de abrir a porta, sentir o veneno e a radiação consumindo minha carne e minha pele, até que meus lábios derretam e revelem o sorriso do meu crânio nu para os visitantes e nós possamos vagar por ai, com a carne tornada poeira, soprada pelo vento. Tenho certeza de que estou louco. Só não sei ainda qual é a verdadeira loucura. Essa terra estéril onde sobrevivo ou os fantasmas translúcidos que me chamam para a vida.

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