Carne nua
On April 27, 2016 | 0 Comments

Estou cansado das lembranças. Da última viagem, do melhor restaurante, daquele livro que eu adorei. Estou cansado desse filme que passa eternamente em minha cabeça, com recortes de coisas que já nem sei mais se são verdade. Fotos, sorrisos, abraços e beijos. Lençóis amarrotados que se embolam entre nossas pernas. Estou cansado das mesmas falas que se repetem insistentemente ao meu ouvido, numa ladainha de promessas que saltam ao bumbo do peito. Cansado da trajetória que eu fiz, tropeçando e levantando, limpando a poeira das calças rasgadas e jogando água no joelho esfolado. Não me importa mais quantas léguas percorri. Quero novos planos. Novas metas. Novos sorrisos. Novas descobertas. Troco todas essas memórias por um objetivo novo no horizonte. O álbum de fotos por um rolo de filme. O diário de guerra, por um guia de viagens. O sabor de um restaurante pela incerteza das portas fechadas e coisas cuspidas. Estou cansado de acumular histórias. Quero viver livre e novo, como um peixe dourado, perseguindo a própria cauda, com uma nova surpresa a cada dois segundos. Vou deixar para trás todas as minhas memórias e com ela todas as minhas expectativas, como se o mundo fosse algo novo e único que se esfarela tão logo pouso sobre ele os olhos. Vou abrir as portas da minha casa e entregar aos bandidos todas essas memórias que eu acumulei como móveis usados, que perderam as pernas e foram lascados, empilhados uns sobre os outros em uma pira que não se consome. Vou amassar todas as páginas onde colecionei fatos e nomes, histórias e lendas, e rasgar as roupas manchadas pelos jantares, crianças, bebedeiras, cães, viagens, trabalhos e fodas. Vou sair nu pelo mundo, descalço, sem mala, sem rumo e sem pêlos. Vou raspar meu cabelo e arrancar minha pele, deixando ao meio fio minhas orelhas, minha boca, meu nariz e meus olhos e na próxima esquina, toda a carne, ossos, sangue e coração pulsante. Vou seguir adiante. Leve e vazio, como o vento frio tocado pelo sol, se divertindo com tudo, erguendo as folhas, as manchetes, a roupa limpa e as saias das meninas.

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