Outro silêncio
On December 28, 2015 | 0 Comments
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O silêncio, fotografia de Thomas Baccaro

A alguns dias eu quero escrever. Previa que a coisa não seria boa e, como uma dor que você ignora para não crescer, deixei isso de lado. A vontade, como era de se imaginar, só se espalhou. Veio sem foco, sem razão, animada pelas festas de fim de ano, pelos dias de silêncio, pelos livros que eu não li. Tentei usá-la nos meus projetos, no livro novo para entregar em janeiro, nos contos que se espalham pela casa como postits sem cola que se perdem por baixo dos móveis. Tentei filosofias banais, pensamentos cotidianos, frases de efeito e resenhas culinárias. Nada aquietava o monstro. Essa coisa que vive em mim como uma chaga que nunca fecha, uma coceira que eu não consigo alcançar e que torna viver tão confuso e tão interessante.

A verdade é que no fim do dia eu temo os confessores, os exorcistas e o vazio que me restaria se eles me arrancassem o demônio que guardo por trás da barreira dos dentes. Então eu travo o maxilar até sentir os ossos trincarem sobre a verdade, feito as barras sobre um condenado. O que escapa é apenas seu grito de inocência, nunca seus pecados.

Os dias amanhecem exatamente assim. Out of the Blue. Com uma frase desconexa que eu não sei bem onde se encaixa e que eu martelo e lapido por semanas a fio, sem ter idéia de para onde ela vai. O que sobra é o medo de que um dia eu fique sem voz; que ela seja baixa e insuficiente, mesmo que eu me esforce para gritar até que a garganta fique em carne viva. Não importando quantas vezes eu repassei essas falas, quantas vezes ensaiei esses passos, quantas vezes afinei essa musica. Restando apenas um olhar piedoso do elenco e um lugar de honra nos bastidores, que eu vou enterrar no fundo do meu estômago junto com todas as outras merdas que eu não conseguiu digerir.

Não espero fazer sentido. Espero que seja lá o que estiver ali, se derrame pela folha e seja vista como verdade, como o dialeto de um escravo morto que do túmulo se faz ouvir. O que cresce em mim é metade crônica sem sentido e metade poesia sem musicalidade, sendo o pior de dois mundos, sincero como um quadro abstrato cujo significado a gente finge que entende para parecer inteligente para a garota que queremos levar para a cama.

No fim, o texto acaba sem clímax nem ponto, sem prazer ou sem gozo, como uma foda seca que você mente que nunca lhe aconteceu antes e um silêncio desagradável de quem ainda não aprendeu a rir junto. Fica no ar o pedido de desculpas, a dúvida sobre se vestir e ir embora, ou se abraçar e disfarçar a decepção. Só que a coceira não passa. A raiva não passa. O texto não passa. Apenas se esconde novamente na jaula das costelas, rosnando baixo como um gato do mato, enquanto espera outra chance de enfiar a garra pela sua garganta e arranhar o grito que ninguém mais ouve. No fim, não tenho voz, então eu me calo. Termino cada frase como a sombra de quem eu queria ter sido, sem coragem de ver quem está de pé na boca da caverna. E lá se vai mais um ano, mais um texto, mais um grito, outro silêncio.

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